Wednesday, April 08, 2015

Inimigo Intimo



Como lutar contra um inimigo
que se confunde consigo mesmo?
Quando ele se esgueira
por baixo da pele
e cada golpe é dado contra um espelho?

Somente olhando pra dentro.
Quando a arma do inimigo é o corpo,
afia-se a alma.

Tuesday, April 07, 2015

Resposta



Acordou naquele dia como de costume.
Queria que fosse o último
mas era só o mesmo.
Era o mesmo dia a 20 anos.
Cada possível gota de prazer ou desejo
despidas pelas marteladas da rotina.
A dama louca do relógio
dona do destino
de uma modernidade cega e perdida.
A esperança como luz no fim do túnel,
no fim dos tempos
ou em um eventual acidente natural catastrófico.
Mas então olhou para o céu,
para as nuvens correntes que,
em sua indefinição perene,
se emprestam para a imaginação dos homens.
Lá estavam as vozes das musas,
o torvelinho caótico da criação,
a chance eterna da mudança.
Pois não há nesse universo
nada que perdure.
Nem permanência
que não seja sempre aparente.

Monday, April 25, 2011

Matinal

Começa lento
sonolento e vagaroso
transfixo em caras e corpos.
Os dias, impressos em cada um,
cada um de tantos,
qualquer um de tantos.
Uns poucos, mais mortos,
asfixiados por suas máscaras de plástico,
pretendem sorrisos.
O (mau) humor matinal
é mais humano,
bem mais sincero.

Zen sufista

O amor é o perfeito silêncio
sentido quando não há barreira
e as palavras,
imperfeitas em sua natureza,
se calam.

Amor é uma morte,
pois se existimos e somos
o que dizemos e pensamos
sobra pouco no meio do silêncio.

Sem palavra não há fuga
ou subterfúgio.
Resta a conexão,
contato direto com a realidade,
sinceridade da vida
e plenitude.

Monday, February 21, 2011

Eles

Para eles sou metade
mendigo existencial
alvo de olhos rendidos.

Eles olham para baixo, não encaram
e quase posso ouvir seu pensamento.
Para eles sou surpresa
pelo meu respirar
pelo fato de viver
e seguir em frente.
Para eles sou menos
santo assexuado
ou possuído, amaldiçoado.
Para eles, em seu kardecismo preconceituoso
nasci pior, pagando meu karma/crime.
Antes eu os queria mortos
decepados, destruídos.

Hoje eu não os vejo
não sonho com seus olhares
nem mais me escondo.

Monday, December 06, 2010

o olho

os olhos se relacionam ao invisível
são a máquina de somar, multiplicar,
aplicar novas camadas ao mundo.
a melhor cor pra tudo é a imaginação

distrofia

olhar o dragão
estudá-lo
medir seu tamanho
conhecer seu peso.
conhecer o inimigo,
para travar a guerra da vida
bravamente.
espada em punho
e sorriso nos lábios.

Monday, October 25, 2010

olhar

não ha arte que se perca
apenas um hábito que se esquece
meio sem querer
tipo na rotina.
o olho é o mesmo
mesma cor, mesma iris,
mas a alma que por ele escuta
muda, é diferente.
é alma cansada,
alma óbvia
que esqueceu de ver o novo.
o sorriso dela e a frase implícita
"tudo vai ficar bem".
é um ir embora que segue um
"titio" de um ser pequenino,
e você volta só pra ver a brincadeira
de criança que descobre, que se torna.
Arte, olhar de quem busca o devir
e não esquece, nem se quiser.
alimento sempre e desalento também
o tudo que é só um pouquinho
mas basta. basta.

Morno

Morno,
como quem vomita
sem opnião
apenas uma palha quebradiça
fácil, que se parte com o vento.
Eu, que já me parti
com o peso de meu próprio corpo.
Em número 3, exato,
femuramente no mesmo lugar.
Me sinto fraturado,
com andar fraco.
Exposto, sem pele
temeroso, desconfiantemente
eu mesmo.
Soco no ar
de um rato que ruge
e um demônio, que ri baixinho.

Sunday, June 13, 2010

amor

Quero cantar o amor
e o todo que ele representa.
Deixar que flua
que cure e transforme
revelando, purificado,
o espírito, minha alma.
Árdua tarefa
pois amor é filho do silêncio
surge na calma, no perfeito vazio.
O Eu é a barreira
construções ilusórias
Maya sobre a vida...
Quando tudo está quieto
quando não há barreiras
entre o sujeito e a experiência
é ele que vibra.
O amor é encontro
do ser com a vida
o silêncio búdico
que revela o sentimento crístico.

Monday, June 07, 2010

passado do feliz etnocentrismo

O passado
promessa encerrada
lembrança irreal da perfeição
ilusória, gritada aos sete ventos.

A música está morrendo,
O cinema está definhando

Antigamente, as coisas eram mais certas.
Onde estão os valores?
(cadê meu rivotril??)

A morte visita aqueles que querem morrer
o passado é vulto, é âncora, é desculpa.

Antigamente, as coisas eram melhorespra quem era branco
pra quem não era mulher
exclusivamente para os heterosexuais
num mundo em que os que tinham deficiência eram escondidos
trancafiados, eliminados.

O amor exclusivo ao passado é para os mortos,
os velhos infantis, teimosos e apegados ao que já foi
incapazes de se conciliar com o mundo do real.

Morram, aqueles que querem morrer
e chega de lamúria, sem drama.

A vida é nova, é trabalho de demiurgo
de gente que sonha e cria o mundo.
de quem aprende com o passado
e sai a cata do que ainda não é
mas pode tornar-se, é devir.

Monday, May 31, 2010

dor

sabe quando a gente se sente grande demais?
quando parece que se você fosse menor
menor, proporcionalmente, seria a dor?
mais suportável seria o sofrimento
esse rasgo que descobre o negrume da alma
e expõe, explicita, esfrega-se na cara do mundo.
sinto dor mas não cuspo sangue...
sinto dor mas não sei por que
nem de onde veio, nem pra onde vai.
Além da dor, sinto o desespero
me acuando, me apunhalando
como um fantasma
um ser de outro mundo
que não se pode tocar.
que dele não se pode defender
pois nada parece diferente
nem mais errado que ontem
apenas mais claro
como um ferro em brasas
quente, próximo dos olhos.
Grito no vácuo
sem porque.
nada, ABSOLUTAMENTE NADA
que explique.
eu, eu minto.
uma alma que não grita
um ego que esperneia
um auto-crítico que se deleita
h i s t e r i c a m e n t e
a l é m  da medida.

sim, não há pista
mas o veneno simplesmente se destila
escrito aos bits
arriscado de se perder
num simples fechar de telas.

o auto-crítico não mais sorri
ao perceber sua ode masturbatória
em risco de vida.

eu sorrio
feito balão
esvaído de gases inúteis
minhas amadas idéias mortas
meus ideais sempre incognoscíveis
meu gostos esconcidos em pistas
imiscuidos no gosto dos outros
feito um medroso
que precisa de companhia para saltar o penhasco
que pede desculpa
pra ver se alguém escuta.
mas não, vivo em monólogo
grito em monólogo
e brigo apenas comigo.

e escrevo, como se tudo fosse verdade
e acredito, como se tudo fosse verdade.

quem sou não é uma pergunta
quem sou é ausência de perguntas
quem sou é silenciosa, não esperneante, aceitação.

CANSEI.

André C.

Monday, May 24, 2010

Lições

Eu aprendo com o corpo.
Sei mais sobre o que toco
e sinto
do que o que penso
ou racionalizo.
São Tomé Taurino
com todos os 5 sentidos.
Se têm gosto
ou me provoca
ou me convida
ou me seduz,
se me chama como um todo
ao experimento, ali estou.
Minha verdade:
amor como aprendizado
deus como totalidade
escolha como constante
perdão é liberdade
compaixão para completude
determinação como guia
desejo como espírito
esperança, caminho,
conhecimento por experiência
e plena, quando como pão partilhado.


André C.

Monday, May 10, 2010

Eu canto


Eu canto
Por querer

Sem querer
fazer parte da roda do violão
pois não é pelos outros que canto.

Sem ser pelo desafio
de me esticar pelos extremos
o tom escuro dos graves
ou a plenitude dos agudos.

Também não canto
pra fazer tudo certo
nem pra fazer tudo errado.

Canto porque quando eu canto
um sorriso descontrolado se apodera de mim
e, assim, sem perceber
eu não ligo mais se estou no controle
e quando atravesso o medo e a timidez
encontro o silêncio
e sinto algo próximo à plenitude.

Canto por amor
pois assim esqueço um pouco de mim
e me sinto livre para entrar mundo adentro
de peito aberto,
pelas corridas que me são impossíveis
e pela história que quero contar.

Monday, April 26, 2010

Menos

Eu quero ser menos
minúsculo
ínfimo e limpo
sem barreiras egoicas para a vida.

Se eu sorrio ou se eu choro
se eu grito ou se eu soco
se eu levo de volta ou saio impune
não importa.

Quero ser menor
de um tamanho suficiente
para que a sombra  que evoco
seja bem menor que a que hoje sinto.


Minha sombra
minha corrida feito cachorro buscando o rabo
rodopiando, sansareando na roda do mundo
sem centro, sem silêncio, sem paz.

Quero ser menor
pois o amor que sinto
facilmente se perde
no mito do meu narciso.

Vivo à beira do rio
pulo, afogo?
creio que posso sempre escolher:
melhor queimar no sol.

André C.

Monday, April 12, 2010

Impacto

Viver tem a ver com impacto. Naquela hora que você, sujeito tranquilo e "normal" vira a esquina e tropeça numa pedra, toma um balde d'água ou simplesmente ouve. É a hora em que você descobre que o franzir dos lábios era só uma vontade de rir descontroladamente, sem limites, bestamente, felizmente, sinceramente contente sem motivo. As melhores coisas parecem vir do absurdo, do que não se imagina, do impacto que não se esperava. Viver tem a ver com abrir o peito, receber, matar no peito e fazer daquela bola quadrada uma mortal bala rodopiante ou uma inocente bola de plástico que bate sem maior dano. Impacto, cheiro, toque, pele, vibração que evoca em tudo um som. Para tudo há um som. E eu gosto de gente que faz barulho, que grita, que canta, que expressa alguma coisa para o mundo. Olho minha janela. Além dela não há só uma terra devastada, além dela tem gente, tem sangue, sentimento, coração e grito! Impacto de vento contra os cabelos de quem corre. Desembestado.

Saturday, March 20, 2010

minuto de silêncio

um minuto de silêncio
não pelos que morreram
mas pelos vivos
em seu dia a dia ensurdecedor.

o externo conspira
contra o eterno presente.

André C.

Tuesday, January 05, 2010

coração

Encontrei nas minhas anotações algo que escrevi  e que me parece apropriado para o ano novo.

Quando vou começar a escrever sobre a minha própria recuperação? Sobre minha vitória sobre as adversidades e as pessoas que me ajudaram nesse caminho?

I don't belong here. This  sounds like a common motiff in my story as a human being. 
(Eu não pertenço a esse lugar. Esse parece ser um tema recorrente da minha história como ser humano). 
Heal. 
(Cura).

Palavra forte que me dá medo. Medo de acreditar em sua mera possibilidade, orgulho de querer me igualar de alguma forma a Deus num campo de combate. Sou mais orgulhoso que tímido, me conheço melhor hoje. Amor. Essa é outra palavra forte, poderosa. Dela não tenho medo. Tive e sinto que vivi o amor nessa vida. Mas sinto que falta algo. A cura pelo amor. A liberdade por meio do amor. E a idéia de um Deus que me ama é boa demais para ser descartada. É real demais.

The freedom and simple beauty are to good to let it passa by 
(A liberdade e a simples beleza  são boas demais para se deixar passar). 
And love exists in the among both. 
(E o amor existe entre ambos). 
Loyalty is one beautiful value to live by 
(A lealdade é um belo valor para se viver por ele). 

Eu quero esse Deus comigo, um Deus de amor. E o tenho comigo. Sempre tive, nos momentos felizes e tristes. Mesmo quando achei que Ele não estava presente ele estava comigo. Saber que existe alguém que me ama incondicionalmente é algo lindo e saber que esse amor não morre é ainda mais grandioso. Mas eu temo a cura, apesar de buscá-la, medo de novas dores, medo de ter esperança. É tempo de renascer. Tempo de batismo, de entrar na água, no útero aquoso da màe terra para me fazer novo homem. Eu espero e quero mais disso. "Eu vi o amor, ele nunca me deixou. Levo meus joelhos ao chão". Orgulho e medo. Amor tem a ver com uma postura humilde, simples, de receber e partilhar. Uma postura sincera, desarmada e o peito aberto, como na música. Um sonho caro, importante para mim.

Hapiness is only real when shared. All things grow when shared, in the meeting of eyes, such as Love 
(A felicidade só é real quando dividida. Tudo cresce quando é dividido, no encontro de olhares, como o Amor. 

Onde está meu coração? Aqui. Agora.

Thursday, December 17, 2009

sem palavras

uma lágrima resiste à gravidade
escondida do mundo...

a falta que faz
alguma coisa sem nome
nascida do íntimo
que parece mas não é bem um pesar
que é sim tristeza, mas não só,
que é insubstituível por palavras
meras incontáveis tentativas, racionalizantes,
de dar murro em ponta de faca
de escrever com letra
o que de fato é saudade.

Pessoas

os que passaram mas ficaram
os que passaram e sairam
os que não vemos mas carregamos

que deixam gosto de nostalgia
e uma pergunta, suspensa no ar,
por que tão distantes?
Por que eu distante?

Wednesday, November 18, 2009

Ao longo do caminho

Transtornado,
forma transitória
do cavaleiro transfigurado
da (nem um pouco) triste figura.

Tornado passageiro,
vulto todo iluminado
cheio de silêncio:
transformado ao longo do caminho.

André C.

Tuesday, November 17, 2009

Passagem

O tempo
espiral desdobrada
de quem olha por vezes o mesmo
já de outro ponto de vista.

Não é um círculo, constante,
antes, é serpente que se desenrola
não cabendo em linhas, escada reta,
feito em progressões exatas.

Não há disso no tempo
feito de suas antiguidades e rituais
dado a desarranjos e imprevisibilidades.

Nem só de progresso vive o homem,
o pão que comemos
é bem mais efêmero.

André C.

Tuesday, November 10, 2009

Só lembrando...

A melhor cor para tudo é a imaginação.

Tuesday, November 03, 2009

Toalhas e o amor

Estar apaixonado, profundamente,
é estar feliz pois você encontrou
ao lado de sua toalha a toalha dela.
E próxima da sua escova de dentes
a escova e o creme dental dela.

É saber que ela, a amada, se encontra ali
do outro lado de uma porta
que em breve se abrirá.

É um caminhar orgulhoso, na rua,
com o pão quentinho, da padaria,
para tomar café com ela
(só com ela)
na cumplicidade do sorriso
e de um beijo-selinho roubado
a cada mordida.

Estar apaixonado, de vez em quando
é tristeza:
quando sua toalha está sozinha
ou a dela continua dependurada
sem que Ela esteja presente

quando a escova dela foi embora
e o chocolate dividido por amor
virou só uma embalagem vazia.

E ai é ficar de novo alegre,
sonhando com a chegada do dia,
aquele dia em que ela,
o seu único e apaixonado amor
virá de vez, para ficar.

Deus

Vi a luna hoje.
Coisa complicada,
poesia iniciada em ato falho.

Vi a lua hoje de um jeito de antes, que eu não me lembrava. Na última vez a lua era sol e eu me encontrava desesperado na dúvida profunda de que se Deus existia ou se deus não existia. Nunca na minha vida me pareceu mais importante responder essa dúvida do que naquela época. Eu precisava se uma solução ou minha cabeça explodiria. A solução encontrada foi a suspensão que era pura sinceridade: eu não sei.

Não sabendo fui seguindo e livro após livro, experiência após experiência vi o simbolismo de Deus e aprendi que não sabia o gosto de quê eu estava sentindo. Comemos amoras, mas podemos ter certeza da literalidade da experiência? Entre nós e o mundo haverá sempre uma barreira simbólica, um nome, uma imagem, uma palavra. O que nos separa da realidade nos une na convivência possível de Deus em muitos nomes, válido em todas as suas máscaras e atado em semelhança. Atado na virtude, na cólera, no poder, no silêncio e no grito.

E o gosto que eu quis então foi uma experiência religiosa direta, além dos nomes, idéias ou imagens. E eu senti esse gosto por via da manifestação natural que considero majestosa: o verde e as árvores. Sonho antigo de correr desembestado pelo mato.

Hoje, entendo e vivo e aceito o simbolismo, mas minha licensa poética me dá oportunidade de ver esse tal deus e acreditar que ele investe em si o amor. Mas ainda o vejo múltiplo e igualmente válido em vários mundos dentro do nosso.

Que mal há em ver na Lua, Luna, uma deusa bela, virtuosa e natural? Não há mal possível em algo tão sublime e maravilhoso. Ainda que houvesse, meu coração de menino emburrado e teimoso me protegeria... A imagem ou a idéia poética da luna nada mais são que meros veículos, importando bem menos que a viagem.

Tuesday, October 27, 2009

Norte

Sou o que gosto.
Sou do que gosto.

Meu querer intangível
nem sempre é porto seguro.

Quando a noite vejo a chuva
espero pelo raio e a tempestade.

O reluzir prateado vem para lembrar
que o tempo distante
torna cada tormenta
um história marcada.

Gosto do raio, o trovão diz que há vida
e que a vida está lá fora.

Mas nem só de raios vivemos
além deles há o frescor do vento
soprado no dia do sol
fazendo do verde das árvores
um mundo rico em movimento.

Gosto do sol mas sei viver na chuva.

Monday, October 26, 2009

É, velho, eu aceito

O novo em cada letra
Um grito em cada canto espalhado
e a paz da liberdade
que nào se dá no silêncio
nem se encontra senão na batalha
Alegria de quem se encontra na linha de tiro
que se joga e se testa, negando a cada momento
a morte do ser que sonha.
E eu sonho, ainda que eu tenha aprendido
(finalmente)
que quem sonha não pergunta
apenas sinaliza com a cabeça,
ainda que ninguém o veja,
pois diz sim para si mesmo:
"é, cara, é isso mesmo... eu aceito".

André C.

Friday, October 23, 2009

O muito mas pouco e o pouco muito...

Vivemos no mundo do muito. Tudo vem aos montes, informação, músicas, filmes, tudo podendo ser acessado via internet, todas as discografias facilmente disponíveis. Viramos colecionadores de coisas que se contam de mil em mil. Comum se falar em 10.000 mp3 no HD, ou 200 filmes pornô da polônia ao brasil e as milhares de fotos.

Com tanta coisa, e com nosso tempo humano de sempre, sobrou pouco tempo para o saborear das coisas. Aquele CD que se ouve um mês em seguida. As fotos que demoravam para revelar, aquela ansiedade da surpresa, da dúvida e do mistério da revelação.

Acabei de entender o movimento do Slow, do aproveitar lentamente cada pedaço da vida, sentí-lo na pele como as coisas que são incontáveis. Prazeres que não vem aos montes, que surgem como oportunidade passageira, etérea e impermanente. Prazeres que não podem ser plugados nem vem em arquivos de dados.

Wednesday, October 21, 2009

Time and Tragedy and the tangible Love

The passing of time enhances our perception of the tragedy. Moment by moment, death comer near and you feel it's flow. Like a river silent and small that grows bigger into a flood. Such is our fate. Not necessarily dark. Life is either beautifull as terrible. Life is sweet and rough. Time make us live the love, unperceptible in the beggining but each day more clear and present. Love becamos something great, important and perfectly tangible.

Tuesday, July 21, 2009

A espera

Há sempre um poema
a espera de um pulso que o escreva,
de um coração que o sinta,
de um ser que o faça coberto de vida.

Mesmo no vazio há poesia
que é sempre desolação aparente
pois sempre haverá uma história
e um ser humano, vivo em drama.


Menos saudade, menos nostalgia, o que anda olha para frente, e caminha, mesmo que cada passo por vezes doa. Pois cada passo é necessário, importante e completo. Não é a dificuldade que aprisiona, mas o espírito paralisado pelo temor e pelo tempo, que seca o rio dos sonhos, daquilo que é perene na vida. Não é o desafio que move, prefiro o que vem de dentro, prefiro a luta de ursos na caverna, ainda que eu seja uma formiga lutando contra a tempestade. Mas há algo de belo, há um sorriso de menino naquele que, pequeno, ri, meio louco, quando o poderoso raio lambe seus pés.

Eu sou um desses. Eu acho que raios e relâmpagos nos lembram da grandiosidade e da por vezes terrível beleza do mundo. Estar no centro de uma tempestade e encontrar dentro dela o silêncio, e escutar o sibilar da alma, cujo único som vem de uma vibração, que é também uma sensação, é a minha busca.

André C.

Tuesday, June 16, 2009

O caminho para dentro

Estou no escuro. No escuro não se pode ver coisas definidas. No escuro a única luz existente é a interior. Sozinho, no silencio, pode-se ouvir o tilintar sutil da vontade, vibrando quase inaudível. Não é uma luz externa que deve ser acendida. Mas sim o sol eterno interior, o que chama de alma, o que chamam de vontade, desejo, impulsão. No escuro, você sabe que existe, não sendo possível confiar em nenhuma referencia externa, restando só o si mesmo. Lá, livre de influências, está a fonte. Eu sonho com essa conexão. Deus é isso. No silêncio que permite o encontro. O encontro entre o homem, que deve descobrir como abrir a gaiola e o cavalo que lá está. Uma força viril que precisa de direção. Que precisa de uma consciência humana. O cavalo no campo é o cavalo provocado a agir, fora de seu centro, fora de seu lugar. O sangue não importa tanto, ele me diz que é a minha vida ali representada. Minha luta contra os chifres em cabeça de cavalo. Não há nada de grave a ser descoberto. Existe sim um eu a ser encontrado, que sempre esteve lá. Mas para encontrar algo além de uma névoa e uma terra devastada, é necessário mergulhar mais. Além do superficial. Um velho de olhos vermelhos e lobos. Um mar de tubarões, um recém-nascido na caverna profunda e uma planta, uma muda para ser plantada. Um sacrifício. Um nascimento. É preciso abandonar a criança de vez e abraçar a consciência. Do desejo infantil, do choro pedinte, para o da vontade que busca instrumentos de realização. O fim do externo e o desenvolvimento do ouvido interior. Há sim o que ouvir, sempre. O silêncio ou o barulho esconde, mascara, enevoa.

Monday, June 01, 2009

O amor

Sim, o amor, simples, puro e, acima de tudo, óbvio. Tão óbvio que uma pergunta levantada o esconde, como o vidro invisível quando o nariz se encontra próximo.

Encontrei o amor. Ele está onde eu lanço meu olhar. Ele está naquela que amo e o amor dela cai sobre mim como a fina chuva que refresca o verão. Eu sou dela, inteiro e sem medida. E ela é minha. E sim, há um pouco dessa posse no amor.

Quem ama torna o coração do outro tão próximo que ele vira o seu próprio coração. Na sombra de um mora o frescor do outro. No sol do olhar de um se aquece o corpo do outro.

Encontrei o amor. Numa despedida numa triste noite de hospital. Encontrei anos depois, em outro hospital, mas que tinha nome de vida. Encontrei um pouco antes, em outro nascimento, nuns olhos grandes e curiosos, lançados com vigor para todo o mundo. Nada de perguntas, só uma capacidade enorme de processar todos os acontecimentos do mundo.

Encontrei o amor tendo perdido uma grande parte de mim. Pois o amor pede menos orgulho e pede mais coragem, coragem de ser até piegas em algumas horas. Coragem de novamente acreditar numa cura para um mundo perdido.

Coragem louca e desvairada de um sonhador que tinha uma enorme dificuldade em definir o que é sonho. O simples motivo: sonhos são como o amor, quem pergunta demais automaticamente o calará. Como o sujeito estúpido que cobra da criança o silêncio, quando deveria aprender como é maravilhoso o som das primeiras impressões sobre o mundo.

encontro

Puxo atrás de mim uma grande sombra, dura e espessa. E eu temo. Tenho medo de tocar o que é puro, como se eu fosse um sujeito com grande potencial para o mal. A crença no mal me protege de mim mesmo, de toda luz, no coração da suposta sombra. De todo o amor, escondido sob o pano do sofrimento. O véu que é máscara, o orgulho espesso e bem disfarçado. Sem orgulho e a força do mal, o que me resta? A desconfiança, a inveja e a raiva, elementos contrários a liberdade. Difícil de conter a sombra, as barras da minha janela. Eu sou o cavalo mas ainda me encontro numa atuação e não me reconheço com facilidade. O cavalo é um encontro.

corrida

Sem andar, eu ainda sou o que corre. Mas se eu correr, vou me machucar novamente. Se eu reagir ou lutar, irei sentir dor. Difícil viver sabendo da impossibilidade do ideal. Quero o mundo no qual eu corria e era feliz. Eu comigo mesmo. Fora do campo, o menino não andava direito. Dentro do campo, só com ele mesmo, ele corria como o vento, sem comparações, sem inveja de quem corria, sem timidez de ter olhares sobre si. Sem ser menosprezado. Lá, no campo, nada o abalava, até que veio a dor e com ela a sensação de punição. O problema nunca foi com ele mesmo. Pra ser feliz, a gente corre riscos. E sangra.

Wednesday, February 11, 2009

Macbeth

Caia sobre mim a chuva e os raios
Incinerando o medo e enchendo meus olhos de fogo
E que acenda a chama que queima a carne
E transforma o espírito, que feito vela,
Não existe senão para iluminar.
A mesma luz clara que atrai os insetos
Os destrói à proximidade
E os liberta dos despojos mortais.
Sem brilho, sem energia, sem violência
Pouco sobra da vontade de existir.

Saturday, February 07, 2009

A humanidade

A Revolução Francesa e seus descendentes napoleônicos foi uma piada. Mudam as técnicas, continua o homem de neanderthal que tinha o hábito de matar a pauladas seu companheiro vegetariano. E comer o seu cérebro. Satélites, internet, mp3, tudo maravilhoso. Hoje temos nativos sedentos de sangue com jipes e metralhadoras nas mãos. A humanidade é simplesmente uma coisa decepcionante. E a história é um pesadelo do qual eu gostaria de acordar. Concordo com o James Joyce.

O que nos salva é a capacidade de rir disso tudo. Dizer um sim que soa como gargalhada. A ironia que nos salva de recorrer à violência. E o amor, sim, o amor.

A história é uma vergonha. O que não nos impede de viver como humanos, mesmo que ao nosso redor todos se enterrem na lama. Existe salvação dentro de cada um de nós.

Sunday, November 16, 2008

frase

O excesso
ultrapassa
a completude.

Sunday, September 07, 2008

Hai kai

As folhas dançam,
telhado animado:
é só o vento.

Sunday, July 27, 2008

Vasto

Meu espírito
se esconde atrás da bruma.
Não vejo seu fogo,
não sinto seu cheiro,
não ouço seu estalo.
Mas tal como o mar
se esconde no escuro da noite
e à distância não se nota
assim também vive minha alma
encoberta por uma fina nuvem
sobre a vastidão da planície vazia.

Friday, July 25, 2008

Meu sonho de liberdade

Descobri meu sonho, minha essência: eu sonho a liberdade.
De pensamento
De espírito
De corpo
De tudo.

E eu quero mais...

Meu sonho de liberdade

Descobri meu sonho, minha essência: eu sonho a liberdade.

De pensamento

De espírito

De corpo

De tudo.


E eu quero mais...

Sunday, June 29, 2008

Motivo

Eu escrevo por que isso me relaxa.
Por puro gosto.
Pela sensação de não ter compromisso com nada.
Pelo simples gosto de liberdade.
Escrever é o sonho pleno,
escrever é o vento quando o carro acelera na estrada.
Escrever é a plena aceitação de quem eu sou.
Pois tudo está muito bem.
E toda história vale a pena.
Escrevendo nada é certo ou errado, grande ou pequeno.

Escrever é a plena aceitação de quem eu sou.

Tuesday, May 27, 2008

Eu

INTP - pensador intuitivo introvertido com estilo de vida solto. Ou seja, vejo as coisas no plano mais amplo, absorvendo informações intuitivamente e tomando decisões baseadas mais no intelecto que no sentimento. Dado a insights, estimulado por novas idéias e coisas indecifráveis, misteriosas. Estilo de vida solto, pouco preocupado com estabilidade, ordem ou regras. Tendo a ser romântico e perfeccionista, além de um crítico firme. Gosto de sacar a lógica das coisas, entender e desenhar sistemas. Sou bom em entender e explicar coisas loucas de forma concisa, dai eu ter um ideal de professor de coisas diferentes e intrigantes. Tento colocar em tudo um tanto de imaginação, as vezes exagerando na viagem. Como eu busco energia em meu interior (definição de introversão), mais que no ambiente, sou voltado pro autoconhecimento, necessito de momentos de isolamento, e por mais que eu tente, tenho dificuldade com regras sociais e nem sempre sou visto como convencional. Não escolhi ser diferente de ninguém, mas meus interesses e minha forma de ver o mundo coincidem com poucas pessoas. Apesar disso e da minha teimosia, teimo em ter um coração bom, as vezes insistindo na ingenuidade. Muitas vezes essa ingenuidade, essa dificuldade de acreditar que existem coisas impossíveis, aliada a minha persistência, me salvou de desistir no meio do caminho. Não suporto gente mal intencionada, mesquinharia e grosseria me tira do sério (0 a 100 em 4 segundos) e sou um pouco bravo. Mas gosto de conviver e aprendo muito com outras pessoas. Preciso de meus amigos e minha família, eles são meu porto seguro. Tendo a ajudar sem ver a quem, queria evitar isso, mas não consigo. Tenho um ideal de amizade e amor sempre comigo. Estou sempre tentando aprender alguma coisa e apesar de não acreditar que existe uma missão pré-definida para cada um de nós, sei que existo para descobrir constantemente. Dai minha inquietude, estou sempre buscando algo novo. Tenho um estilo de vida simples, não preciso de grandes coisas. Preciso de grandes pessoas comigo. Pessoas sempre serão um mistério para mim, inclusive eu mesmo. Acho que as grandes coisas e idéias tem em comum a simplicidade. Mas nem sempre consigo ser simples. As melhores poesias sabem ser econômicas nas palavras. Grandes acontecimentos acontecem no silêncio. Laços são criados assim, amores surgem, idéias lampejam, uma obra de arte se completa assim. Estarei sempre a procura de uma conexão com o mundo, isso nunca pára. Talvez pare na última expiração. Talvez não.

Saturday, May 03, 2008

Dedicatória

"Her love rains down on me
as easy as the breeze
I listen to her breathing
it sounds like the waves on the sea"

Como não amar quem me fez lembrar que a melhor cor para tudo é a imaginação?

Saturday, April 05, 2008

Amigos

Hoje me deu vontade de escrever alguma coisa sobre amigos. Principalmente amigos distantes.

É engraçado a gente ver o tanto de coisa que vivemos com essas pessoas especiais. Gente que basta você olhar uma foto e, além da saudade, te bater aquela sensação de conforto, aquela sensação de se estar em casa, aquela alegria de ver que, independente de dificuldades ou desafios, eles seguem bem, construindo suas vidas. Bate aquela alegria de ter sido agraciado com essas presenças, de poder participar de seus momentos.

Amigo não precisa de palavra, é um olhar eterno de reconhecimento. Um declarado seja bem vindo e, independente do lugar, essa pessoa te diz que o seu lugar é o mundo todo. Sempre se está em casa quando um amigo está por perto. Uma aura amorosa te envolve e nada parece tão sério ou grave como poderia parecer há alguns segundos.

André C.

Monday, March 31, 2008

Um pouco de tempo

E o sorriso dela ficou comigo.

Poucas palavras pra uma única e bela imagem, que diz tudo na sabedoria e simplicidade do silêncio.

Porém, simplesmente não consigo parar de escrever...

Mesmo que eu não enxergasse, me restaria o olfato e o perfume pairando, pois eu sentiria dela o cheiro da manhã, todo de orvalho e o frescor em verde natural.

O aroma que evoca imagens e bons momentos.

Eu menino, saído da piscina, deitado na pedra morna do beiral, vendo a água cintilando, sentindo o sol presente em seu calor. Tudo era simples. Tudo podendo parar ali mesmo. A sensação de se estar em casa e a casa, podendo ser qualquer lugar.

Mesmo sem olfato, o sol se mostra, pois há a pele, há o tato.
E mesmo sem toque, há a imaginação, o maior de todos os sentidos.

André C.

Friday, March 28, 2008

Pessoas que põe as outras em caixas OU um hino aos idiotas

Frases interessantes que já ouvi:

"Eles se escondem atrás da:

Caro leitor, marque com um X a opção correta:
a) Sorriso
b) Nariz
c) Parede
d) Deficiência"

Quantas vezes já tive oportunidade de ouvir tal cretinice? Muitas e muitas. Já fui colocado no balaio de gato em que se joga coisas que não se entende. Já me revoltei, já xinguei, dei respostas atravessadas e já fiquei sem reação. Todas as vezes que respondi, destruindo alguns alvos, me senti bem. Sempre que não respondi, me senti mal. Hoje tanto faz, não quero discutir bobagens com ninguém.

Mas é engraçado quando algumas pessoas que também tem alguma deficiência, acreditam que isso basta para tornar duas pessoas próximas. Não basta. Deficiência não é característica de personalidade. Posso ter ou não alguma coisa em comum com outro cadeirante, bem como com qualquer outra pessoa.

Esse tal ELES que não existe. Essa bobagem fatalista de que deficiência é uma coisa ruim pra gente aprender alguma coisa. Quem repete isso não aprendeu nada. Não tenho inclinação nem vontade para mártir nem exemplo.

Eu sempre fiquei a margem dessas bobagens. Cada um tem uma vida, nasceu com diferentes condições (físicas, financeiras, estéticas, sociais, culturais) mas precisa aprender, no fim, a se virar, com mais ou menos gente ajudando.

Já estive com uma boa cota de mulheres, de todo tipo. Já escrevi poesia, já cai de amor. Já tenho meu punhado de histórias de bêbado. Realizei alguns sonhos. Já fiz tatuagem. Já desconcertei fanáticos religiosos (esse povo que mata Jesus, transformando o cara num retrógrado). Já rejeitei e fui rejeitado. Estudei. Me tornei mais independente financeiramente que a maioria das pessoas que conheço. Já levei amigo (e me levaram) pra zona. Descobri coisas que não sei fazer aos montes. Já fiz coisa que eu achei que não ia aprender. Abandonei um monte de coisas que comecei. Tarot, estudar pra concurso, jogar futebol. Fiz poucos amigos. Mas o que eu fiz são mesmo meus amigos. Li muitos livros. Fui em centro espírita. Namorei a distância. Fiquei na amizade quando não era isso que eu queria. Fiz e faço aula de música. Mudei de aparência uma boa quantidade de vezes. Cabelo, barba, cavanhaque, gordo, magro, estilo hippie, "plínio", bermudas. As melhores experiências da minha vida aconteceram quando eu estava sozinho. Mas acontece de eu gostar de gente e sentir aquela urgência social inevitável ao ser humano.

E milhares de outras coisas. Boas ou não, justas ou injustas. Coisas humanas. Posso ser um idiota ou um grande cara. Posso ser milhões de coisas. Isso varia, e muito.

E eu não entro numa caixa. Por ninguém.
Categorizar gente é coisa de autópsia.
Quem respira, muda.

Monday, March 24, 2008

Meditação

Quando eu olho, eu acho que penso
mas dou um passo atrás
e eu Sinto.
Meu corpo diz que isso é o real.

Mais um passo atrás
quando eu me achava encostado na parede
e fica o silêncio.
Do medo, da aspiração tensa,
gradualmente inspiro:
tempo cortado pelo além da lentidão.

Fica o silêncio da luz.

Abrir os olhos, então,
é ver tudo diferente
no eterno brevemente revelado.

André C.

Gosto e crítica

Não conheço praticamente nenhum crítico que merece o título. Conheço um monte de gente que gosta de um monte de coisas, mas nenhum crítico. Gosto tem a ver com inclinação pessoal. Eu gosto de rock. Crítica tem a ver com avaliação técnica. Odeio música sertaneja, mas tem um ou outro cantor desse tipo de desgraça... ops... desse tipo de """"""música"""""" que, pra minha imensa tristeza, canta tecnicamente bem.

Tive um professor que eu detestava, um sujeito insuportável, chato e metido, mas que deve ter sido o melhor professor da minha época de faculdade, pois era o que mais sabia e o que tinha uma didática matadora.

Tive outro professor, o melhor, que além de saber e conseguir transmitir, era um cara legal. Era realmente um grande cara, como poucos. Lembro dele também.

E teve um monte de professores bem intencionados que eu sequer lembro o nome. Uns legais, outros chatos, mas todos de uma competência "esquecível".

Crítico é o sujeito que avalia as coisas com algum distanciamento. Que consegue suspender seu juízo e colocar olhos mais imparciais. Crítico é o sujeito que ama o amigo, mas nem por isso deixa de ver seus defeitos.

Aliás, tirar os defeitos que uma pessoa tem é tirar parte do que ela tem de humano. A imperfeição faz de nós seres de que se pode ter amor. Tire isso, e fica pouca coisa. Eu ainda vou aprender a amar meus defeitos feito um pai que olha um filho que está aprendendo a andar: ele tropeça e cambaleia, mas é difícil ver algo mais tocante que isso. Difícil ver um potencial de desenvolvimento tão grande quanto esse.

Tudo, no começo, é ilimitado, tende ao infinito.

Paradoxalmente, ai vem a beleza do ideal. Tudo o que pode ser, mesmo que seja no fim bem menos. Mas eu quero me deitar um dia, sábio que aquele é o meu último, e ter meu último suspiro direcionado ao infinito.

Gosto de quem vê um pouco além das coisas, que permite que o mundo tenha algo de fantástico, algo de infinitamente belo.

Gosto das fotos que me fazem perguntar: o que ela está imaginando? Eu olho e vejo uns olhos castanhos, tão jovens, ligeiramente confusos, mas perguntando o que tem para a frente, o que o mundo me reserva. Viajens? Talvez. Poesia. Ah! Se há justiça no mundo, com toda certeza. Que sejam muitas as poesias.

André C.

Sunday, February 24, 2008

Não foi diferente...

Nem era pra eu ficar triste. Mas por mais distante, por mais longe, por mais impossível que pareça, eu acreditei que, sei lá, no fim do horizonte, podia dar certo. Eu a chamava de minha linda e era a mulher perfeita pra mim. Mas esse tal de amor, difícil de colocar em palavras, pois é coisa que se mostra de olhar, que se mostra numa postura do corpo, que exala, não combina muito com telefone. Tanta busca, toda essa procura.... todo esse não saber. Eu não devia ficar triste. Mas já entendi.

Sentir realmente nada tem a ver com o que parece certo, com o que parece moralmente, socialmente correto. Sentir não tá nem ai para os outros, é algo extremamente pessoal.

Minhas certezas racionais jogadas no buraco por um golpe sutil. Eu quis esse golpe. O que parece forte, certo, acadêmico não resiste ao que parece fraco, intangível.

Eu não devia ficar triste.

Mesmo assim fiquei.

Fazia tempo já, ela já era uma lembrança mas que eu queria para mim. Uma lembrança doce, de um reino meio encantado, mas distante fisicamente, 12 horas distante pra ser mais exato. Como fez diferença essa distância...

Monday, November 26, 2007

Do rascunho

Chega um momento
que tenho vontade
de não ter vontade de nada.
Apenas arrancar meu rosto
minha persona rasa
e deixá-lo no palco
ali, largado.
Há cinzas no meu rastro
e as flores se fecham
pois meu céu não é mais
tão azul.
Provavelmente são meus olhos
hoje bem menos verdes
figurados um tanto mais acinzentados.
Quero rasgar algumas páginas,
queimar muitos poemas
e oferecê-los a um mar agitado.
Que as ondas varram
destruindo tudo.
Que depois das ondas
reste apenas o que basta
para recomeçar.
Quero tudo do rascunho.

André C.

Friday, November 23, 2007

A música sempre me lembra
como tudo é grandioso...

Saturday, November 17, 2007

Coisas que definem

Algumas coisas definem uma pessoa. Acho que com o tempo as coisas vão se definindo melhor e fica mais fácil de entender nosso porquê no mundo. Nada de papo metafísico. Pra mim é bem óbvio que deus nem ninguém nos deu missão nenhuma ao vir para o mundo. Quem acredita nisso sofre de imaturidade ou precisa desse tipo de segurança pra viver.

Ninguém nos deu nada a fazer. Com a vida, desenvolvendo com ela uma comunhão, construímos nossa via, buscando nossos impulsos e capacidades. Nossas vontades e prazeres em viver. Eu queria que alguém me salvasse mas isso era apenas uma dificuldade em aceitar minhas condições e minha forma de ser. Ninguém pode salvar ninguém. Nem deus, nem jesus, nem buda. Encontrando um desses, matem-os, eles são barreiras para você mesmo.

Algumas coisas me definem. Uma das coisas que sei fazer bem é escrever. Há pouco tempo eu não via existir um André sem isso. Mas parei. E é uma coisa minha, que me dá prazer, que me pacifica, que me desafia. Outra coisa que me define é ler. Adoro ler. Também tinha parado. Ler e escrever costumava roubar a cena do resto da minha vida. Hoje essas duas coisas estão integradas com tudo o mais que compõe a minha forma de ser. Inseparável de mim.

Todo o resto pode ser perdido. Mas não consigo pensar na minha vida sem esses dois elementos. Meus, egoisticamente meus, inegociáveis.

Saturday, November 03, 2007

um grito no vácuo

Estou de saco cheio. De tudo. Tudo nesse momento não basta. Ou talvez por estar acostumado com o nada, o tudo nem me parece possível. Sonhos. E eu que não tenho planos.

Gosto de que deu errado. Aquele amargor e eu sem saber o que acontece comigo. Fico com a sensação de que me perdi, de que nunca fiz uma coisa certa que fosse na minha vida. Olhar pro mundo e só ver o mundo me parece algo como uma doença. Fico pensando se não quero demais.

Acho que não conseguirei me contentar nunca com o rumo das coisas. Vai ver que meu destino é focar sempre no que falta. Nada parece suficiente. Nunca vou me acostumar com o tal do gênero humano. Sempre existirá uma inevitável distância. Me sinto destemperado, desequilibrado.

E escrevo. E é pra ninguém ouvir ou ler. Um grito no vácuo é ainda um grito??

Quem eu tenho que convencer? Porque se importar com qualquer coisa?? O mundo absurdo, a realidade simples, aceitável e pobre. Merda. Chutei o copo meio vazio e pisei nos cacos com força. Tingi o chão.

Eu, que preciso me ajudar, não consigo. Acho que quero mais é deixar que tudo caia pois eu cansei de segurar. Melhor é ser inútil. Os inúteis são livres pois nada se espera deles. E eu cansei de me imaginar com dívidas. Cansei de ter algo a pagar. Chega dessa culpinha besta, esse moralismo idiota.

E foda-se, por fim. E como diria o Manoel Bandeira, "cansei de poética que não é libertação".

Preciso de mais coisas legais e de menos gente enchendo o saco. Menos pc e mais vida. Menos música e mais canto. Mais gente que soma, que traz prazer, enlevo. Mais de tudo que é diferente, menos, bem menos, do mesmo.

Acredito numa vida mais gratificante. Quero parar de nivelar por baixo, ninguém precisa disso. Quero ir pra me jogar, não só tentar, mas tentar com todas as forças. Me reconhecer no espelho e desejar entrar no mundo, mais e mais.

Eu escrevo pois isso abre portas onde antes não parecia haver. Eu escrevo pois o beco sem saída, limitado por um muro, pode ser escalado. Eu escrevo porque gosto, porque é algo que me define, que me transforma, me desafia e me põe no caos da vida. Escrevo pois assim encontro o que realmente me faz respirar. Eu escrevo pois só eu posso respirar por mim mesmo. Mais ninguém pode. Escrevo pois isso faz parte de mim, integralmente e sem desculpas. Escrevo por acreditar que deve-se conversar também com o demônio, não só com deus.

Escrevo pois o que eu escrevo ninguém mais escreve. Só eu posso, pois ninguém além de mim sou eu.

Sunday, October 28, 2007

Além do buraco

Será que vale a pena viver cobrindo buracos, fechando túmulos de mortos incessantemente? Somos coveiros apenas, ou algo mais, que busca além de preencher a falta, a fome que nunca cessa, algo mais profundo? Algo mais humano?

Beleza acima
Beleza abaixo
Beleza à direita
Beleza à esquerda
Beleza acima
Beleza abaixo.
Beleza dentro.

Nada está perdido, nem meus olhos estão com defeito... basta mudar a visão e o mundo se revela, novo, vívido, rico de potencialidades. Há um frescor simples. E não há melhor lugar que o aqui. É agora. Definitivamente estou no caminho do pólen. Coisa que nada mais é que aprender a seguir a pulsão de vida e não a de morte. Simples questão de direcionamento de energia.

Eu não preciso treinar mais. O treinamento já é a vida batendo na porta.

Friday, October 19, 2007

Cansei de todas as músicas

Cansei de minhas músicas
e de meus livros roupas poemas..
cansei de quase tudo
menos de mim e do que se esconde
nas frestas
no pouco que a luz transporta.
Nem sei quase nada
e foi no não-saber
onde nada se fixa
que me conheci.
Pouco se sabe
pois geralmente há mesmo pouco
e a humanidade existe
bem escondida nas belas coisas pequenas.

Sunday, October 07, 2007

E por falar em cravos...

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente nalgum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim

Tanto Mar - Chico

Tuesday, October 02, 2007

E eu com isso

Assim, do nada, eu não me acho mais tão sincero. Nem um grande mentiroso. Tentei, tentei. Tentei tanto que eu nem sei mais o que exatamente andei fazendo. Tentei por mim e por todo mundo. Tudo uma tentativa. Ruminei uma seriedade que não é minha. Mastiguei chumbo que não era meu. Entrei em mato e briga de galo sendo que eu só estava passando por ali muito que por acaso. Cachorro quer correr atrás da cadelinha mas vira pro lado do apito chato do dono. Fico me perguntando: quando foi que as coisas deixaram de ser? Que tudo foi tropeçando pra parar rolando só uns metros a frente?

Fiz foi muito. Fiz pra caralho mesmo. Acho que sou mesmo é doido. Nunca sei se sou eu mesmo. Se sou o que escreve, o que estressa, o que apega, o que chora e o que combate. Sempre nunca sei de muita, muita coisa mesmo. Nem sei direito o que eu digo. Mas eu acabo falando, não dá pra evitar. Pro bem ou pro mal - bem e mal, essas coisas que sempre são na verdade algo que tanto faz - sempre acabo sendo eu até demais. Quem sabe eu não me tiro um pouco da reta. Será que sempre preciso matar no peito? Estou querendo deixar a bola passar, só pra variar.

Se virem!!!


André C.

Sunday, September 30, 2007

Libertação

O que é o jardim do éden senão o útero de uma mãe? No mundo somos jogados, tirados de um lugar confortável, em que todas as nossas necessidades e desejos são satisfeitos sem esforço. Um lugar sem tempo, livre de todos os problemas. Será a vida simplesmente uma cópia mal-feita, pouco satisfatória, desse lugar? Vivemos desejosos e buscando uma alegoria de um momento completo?

Penso que crescer, libertação, tem a ver em romper esse modelo. Fomos jogados. Mas fico na dúvida se existe vida em olhar para trás, na busca da reconstrução do momento perfeito.

Acredito que a culpa nasce desse sentimento de termos sido punidos, expulsos do éden, do útero. Se estamos expostos ao sofrimento é porque fizemos algo de errado. Certas religiões sabem como captar essa culpa arquetípica transformando-a em grandes instituições. Sabem como explorar tal fato, contando com a falta de maturidade de seus seguidores. Estão pouco interessados no desenvolvimento do humano e da humanidade.

Já os grandes mestres espirituais pensam diferente. Propõe um renascimento. "Pare de olhar pra trás e desejar feito uma criança. Como um animal. Deseje com liberdade, como um ser humano."

Não tenho absolutamente nenhuma fé na humanidade, que é apenas uma abstração. Só o indivíduo pode se libertar e viver uma vida humana.

André C.

Reflexo

O céu passa
sobre o tampo de vidro da mesa.
Não só a nuvem passa
o prédio também caminha
e uma ponta da árvore.
Sempre preferi a árvore
que cresce e venta.
Os prédios são enormes desafios
mas o humano, assaz pequeno,
precisa de coisas eternas.
Um prédio morre.
Uma árvore lança sementes.

Poema tântrico-meditativo mononumérico em sequência estacionária e, principalmente, (bem) sonoro

11111111111111111111111111111111111111

Instrução: use seus pulmões.

Filosofia

Ter mais coisas eternas,
fugazes e pequenas,
do que as que perduram.

Zen Concreto

8EEEEEUUUUU!!!!!80
8EU!80
8EU.80
8EU?80
880
80
0

Wednesday, September 19, 2007

O sol e o dedo indicador

Enquanto vocês (liberdade de tradutor) estavam se enforcando nas palavras de outros
Morrendo para acreditar no que vocês ouviram
Eu estava olhando diretamente para o sol brilhante.

(While you were hanging yourself on someone else's words
Dying to believe in what you heard
I was staring straight into the shining sun)

A palavra, ou o dedo, apontam o sol.
Mas o sol é o sol, não é dedo nem palavra.
Idiotas olham para o dedo que aponta a Lua e esquecem da Lua.
Leem bíblias em sânscrito, grego, latim, árabe e quetais achando que deus se esconde lá.

Mas a Lua! A Lua é uma outra coisa completamente diferente!
Mais vale o poeta, frustrado por saber que o mundo não cabe num livro,
mas que termina feliz por ter dado o melhor de si à tarefa,
pelo fracasso triunfante, em humildade,
que o teólogo que estuda fantasmagorias.

André C.

Hey you!!!

O Zen diz que a verdade vive no silêncio. Bem natural que os bons poetas não usem muitas palavras. João Cabral, Antônio Machado, Cecília Meireles, Alberto Caeiro... todos econômicos, todos precisos.

A bíblia do Zen são as histórias. Simples, absurdas e engraçadas. Nada de santos sérios compenetrados e tristes. Nem verdades que valham mais que a vida. Pouca coisa mesmo. Nada de deveres, nada de difícil... o fácil é o certo.

Poucas palavras dizendo muito. Digo isso para apresentar a simplicidade em que se baseia a minha fé na humanidade, nem na humanidade, essa abstração desumanizadora, mas na beleza e potencial do indivíduo. Pink Floyd, com toda aquela atmosfera, ganha mesmo é em um verso bem sacado ou outro.

Hey you,
Don't tell me there's no hope at all.
Together we stand, divided we fall.

Hey you,
Don't help them to bury the light.
Don't give in, without a fight.

Hey you,
Would you help me to carry the stone?
Open your heart, I'm coming home.


As histórias Zen não servem para serem entendidas ou explicadas. Elas devem ser sentidas, experimentadas. Tudo o que vale a pena geralmente não tem significado. Mas têm gosto, aroma e cor. Experimentar a vida, a simplicidade fora das palavras, no dia a dia. Depois, se for o caso, escrever. Escrever só quando algo te impelir pra isso... temos dentro de nós uma instância maior que é sábia. Que se comunica com o mundo sem intermediários, sem precisar dizer em letras.

André C.

Comfortably numb

There is no pain, you are receding
A distant ship's smoke on the horizon
You are only coming through in waves
Your lips move but I can't hear what you're saying
When I was a child I had a fever
My hands felt just like two balloons

Now I've got that feeling once again
I can't explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb

Tuesday, September 18, 2007

Lonely Stranger

Well, today... man feels right to feel kind of blue. É uma coisa difícil de se dar o direito. Life is a crazy and serious shit. E eu rodo pra lá e pra cá, natural. Everything deserves a good laught. Quanto maior a tragédia mais engraçado pode ficar... e eu, nas minhas pequenas tragédias? É quando, da vida, você toma um concentrado de "E agora José?". Touche e eu pude quase ouvir meu analista rir. Riso de canto de boca teve. To analyse is a way of not talking through things. E o cara tava certo... hoje eu falei... hoje perdi o ar e meio que a compostura de ser forte... well, let´s shout: fuck it! A liberdade é uma coisa que tem gosto de tudo... bitter, doce, dry, desce rasgando, tira o ar... mas que raio de coisa boa! Sentimento de arrancar uma espinha de peixe da garganta... a voz pode ficar rouca, arranhada, mas é um preço que pode-se pagar. That freudian type ia a bald smart mother fucker... indeed.


Lonely stranger, by Eric Clapton........

I must be invisible;
No one knows me.
I have crawled down dead-end streets
On my hands and knees.

I was born with a ragin' thirst,
A hunger to be free,
But I've learned through the years.
Don't encourage me.

'Cause I'm a lonely stranger here,
Well beyond my day.
And I don't know what's goin' on,
So I'll be on my way.

When I walk, stay behind;
Don't get close to me,
'Cause it's sure to end in tears,
So just let me be.

Some will say that I'm no good;
Maybe I agree.
Take a look then walk away.
That's all right with me.

Sunday, September 09, 2007

Auto-conhecimento

No meu olhar conheço o outro
no olhar do outro eu me conheço
no meu olhar eu me conheço
e o outro se conhece no meu olhar.

Friday, September 07, 2007

Baixar a guarda

Sem saber, eu achava que tudo nessa vida era uma guerra. Uma batalha impiedosa e solitária em absolutamente tudo. E eu sonhava com guerras e me sentia sempre o lado derrotado da história. Tudo era sério, pois quando você está numa guerra o risco de morrer é muito grande. Sem tolerância para erros e atenção total. Um soldado deve estar sempre pronto pra luta. E não há espaço para moleza, dúvidas ou questionamentos. Tudo deve ser feito em nome do dever. Sobreviver a qualquer custo. O mundo dividido entre fortes e fracos. Nada de sentimentos, nada de aberturas reais, nada de confiança. Pouca humanidade e sensibilidade. E eu, no meio da guerra, precisando de poesia, letras, música, pessoas e arte. Todos os meus livros foram perfurados por balas. Era inevitável.

Tava tudo errado. Inconsciente tem hora que é uma merda por causa disso. Tem coisas, certas imagens e modelos mentais que nos influenciam sem que a gente saiba. Coisas que por baixo do pano, abaixo da ponta do iceberg, determinam nossos comportamentos. E a vida numa guerra só pode ser cruel, despida de qualquer beleza ou grandiosidade.

E eu, que me achava tão fraco, não era percebido assim. Pra muita gente sou um cara sério, decidido, firme, independente e capaz. Sou agressivo, mau-humorado e nervoso. Faço colocações incisivas e duras, ataco a qualquer sinal de provocação. Reajo mal quando pressionado. Sou fechado e duro demais comigo mesmo e com outros. Sou justo até o limite da dureza.

Surpresa ser tudo o que eu achava que não era. Ou melhor ter os comportamentos todos construídos no mote da vida é dura, má e pesada sem saber que isso baseava a minha vida. Onde foram parar os meus sonhos? Eu queria ser poeta ou criador de coisas. Eu tenho um ideal quase zen de vida. Eu queria aprender tudo. Eu confio na minha capacidade de aprender a aprender qualquer coisa.

Meu espírito debaixo de uma bota de militar, esmagado. Por que?? A troco de quê??


André C.

Sonho

Diz o Aurélio que sonho é uma idéia dominante, perseguida de interesse e paixão. Mas eu não me entendo com o Aurélio, esse Jeová vingativo do antigo testamento.

Pois minha dificuldade é saber o que é um sonho. Sei que eles importam, sei que sonhos são as capas translúcidas que revestem todas as coisas, feiro aura. Mas pra mim eles parecem muitas vezes as roupas dos reis nus.

Coisas importantes são tão tênues que chegam a não parecer coisas. As grandes coisas teimam em fugir das palavras, das idéias e por vezes se escondem em sentimentos difíceis de se perceber. Mas eles estão lá.

Meu sonho tem a ver com liberdade, tem a ver com iniciativa, tem a ver com enxergar o brilho nos olhos dos outros e não sentir inveja. Joyce diz que pornografia é quando o observador quer para si o objeto. E que epifania é quando o senso do todo te possui, te enleva.

Meu sonho é atingir epifanias ajudando o desenvolvimento do mundo. Meu sonho é ser rei soberado de minha vida, Rei de Copas, feito de coração e honra. Firme no propósito e na ação. Meu sonho é ter epifanias com a beleza do mundo. É ver tudo o que for grandioso, é estar no mundo guiado pelo meu brilho nos olhos.

Pois é o brilho nos olhos a verdadeira forma de ver. E o olho que brilha é o condutor mais seguro para a vivência do sonho!

Todo criador é um sonhador. Todo criador se sente sozinho e quer criar para si um mundo vivo, povoado.

André C.

Filosofia

I once thought it better to regret
Things that I have done than haven't

Sometimes you've got to be wrong
And learn the hard way

Porém melhor seria se tudo fosse fácil. Os moralistas dizem: mas ai não teria graça. E qualquer um realmente sincero responderia com uma boa gargalhada. Acho que eu espero mais da humanidade do que o que pode ser oferecido. Por vezes imagino que sofro de alguma síndrome de Rex. Mas também pode ser só preguiça de arregaçar as mangas. Na verdade é mais simples: errar é foda. Ainda aprendo a não levar tão a sério. No potencial de aprendizado eu acredito.

Sem desculpa

Sempre precisei escrever para alguém, ter um alvo, uma musa inspiradora. Foram tantos alvos e uma infinidade de musas. Tirei de mim a vontade simples de escrever. Não há sentido em escrever. Mas, na verdade, coisa algum tem significado instínseco. O significado final das coisas e a suposição de sua existência são arbitrariedades impostas pela vontade irrealizável de ter certeza. Só os verdadeiramente sinceros e corajosos aceitam viver sem um saber final.

Quero me acostumar a escrever não pelo sentido que isso tem, mas pela profundidade que isso me acrescenta. Profundidade que, do início ao fim, é só minha.

Tuesday, September 04, 2007

Eu preciso lembrar

que eternidade, é sonho de viver com brilho perene no olhar...

Moody blues

We´re part of the fire that is burning
And from the ashes we shall bring another day...


Shiva, o deus que destrói o tempo dançando, é mais adorado que Bhrama, o deus criador. Criados já fomos, é algo dado, mas a transformação, a mudança, acontece, empurrando para a frente... queremos morrer pois sabemos: assim se dá a vida.

Mais que entender a dança, dançar.

Thursday, February 22, 2007

Rumi I

O mar é uma coisa
a espuma, outra;
Esquece a espuma e contempla o mar noite e dia,
Tu olhas para a ondulação da espuma e não para o poderoso mar.
Como barcos, somos jogados daqui para ali,
Somos cegos, embora estejamos no brilhante oceano.
Ah! tu que dormes no barco do corpo,
Tu vês a água; contempla a Água das águas!
Sob a água que tu vês há outra água que a move,Dentro do espírito há um espírito que o chama."

http://www.sertaodoperi.com.br/poesiasufi/index.htm

Wednesday, December 20, 2006

Retorno em espiral

Um dançarino percorre com seus movimentos a borda de um abismo e a única coisa que o separa da queda é uma tênue corda, flutuando misteriosamente em forma de espiral.

As coisas parecem ser repetições delas mesmas, só que vistas de novas perspectivas, diferentes níveis de consciência. O que já basta para que elas não sejam as mesmas.

Começando o caminho da espiral pelo centro, passamos pelo mesmo ponto de novo e de novo, mas numa curva mais aberta da espiral.

Silêncio.

E o silêncio de hoje é completamente diferente do meu silêncio que foi ontem.

André C.

Wednesday, November 29, 2006

I'm alive and vivo muito vivo, vivo, vivo

"I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo
Feel the sound of music banging in my belly
Know that one day I must die
I’m alive"

Nine out of ten
Caetano Veloso



André C.

Thursday, November 23, 2006

Tudo bem

- Tá tudo bem.

Era o que, entre as lágrimas, se podia ouvir. Lágrimas temerosas, envergonhadas, a princípio, como a água que começa lentamente a correr no leito do rio, quando do fim da seca.

- Mas então, o que aconteceu?

Eu poderia comparar as lágrimas às gotas da chuva criadeira. Aquela chuva que enobrece a terra, trazendo o crescimento das sementes. A chuva que cai porque tem que cair. A chuva que cai para esvaziar as nuvens da cor cinza. A chuva que inaugura uma imensidão azulada.

- Tudo aconteceu. Tudo, mas tudo mesmo, ainda que, aparentemente, tivesse parecendo que fosse nada.

Ainda que houvesse no princípio mudez. Mudez feito o caos do início dos tempos, cravado no vácuo. Mudez que não era falta do que dizer. Mudez da dificuldade de tornar em texto a metáfora. Ah, se pudessemos falar em imagens.

Tentei. Eu griteu lápide! Griteu nuvem negra e raio! Gritei dor. Dor que pede bálsamo. E depois de tanto grito eu consegui sussurar: paz. Vida. Sim.

Eu que pensava que pensar era ruim, descobri que pensar é só pensamento. Trarei tal pensamento nos braços, acalentado, feito o menino jesus do Alberto Caeiro.

André C.

Wednesday, November 22, 2006

Canto

"Porque o instante existe". E vejo a fumaça, dançando no ar. O que eu imagino é essa fumaça, tomando em neblina todo o quarto. Então ela toma forma, saída de Maya, se transforma e vejo alguém. Tornada realidade, faz-se a presença. Então vejo a linha do seu pescoço, assim, curvilínea, e é como se meu olhar brincasse, te descobrindo. É como se meu toque e meu beijo, detalhe por detalhe, pudesse te construir. Adoro essa sua curva do pescoço. Dá vontade de deitar... e então olhar para cima.

Quem eu enxergo? Ah, bastasse a brincadeira de abrir e fechar os olhos, imaginando um mundo ficar mais triste, no escuro, e então mais feliz, pois a luz te revela. Vejo sempre um jeito de sorrir, combinado perfeitamente com um jeito de olhar com olhos entreabertos. Ouço música, de Chico Buarque: “é na soma do seu olhar / que eu vou me conhecer inteiro. / Se nasci pra enfrentar o mar”.

Fico pensando o que há por detrás dessas duas janelas. Mas o que vejo, mesmo que não digam em palavras, me dá a sensação de acolhida. E eu te beijo, e há sempre um pequeno detalhe a descobrir. É um pulo discreto e ai já estou ouvindo sua voz ao pé do ouvido, mais um pouco e te sinto muito próxima.

Deixo que minhas mãos caminhem, que meu tato também contribua para o seu desenho. Percorro seu corpo, demoro meus dedos em suas costas... há algo de mágico e elétrico no arrepio irradiado da sua pele. Me convida sempre a procura, me surpreendendo. Mistério cantando feito sereia para um curioso do mundo.

E eu ouço o canto que diz que a vida não é sempre luta. Pode ser aventura e descoberta.

Saturday, November 18, 2006

Em potência

Spinoza fala do desenvolvimento humano usando a imagem da árvore. A árvore cresce e se desenvolve, partindo de um centro enraizado para alçar as alturas em seu caminho envergado. Seus galhos, orgânicos, se fazem de forma assimétrica, pois assim é o que cresce naturalmente.

Cada pessoa é assim uma árvore. Ela se desenvolve dentro de suas potencialidades, múltiplas já em sua semente. Tudo o que haverá cabe naquele uno mínimo, talvez as tais 21 gramas que pesam a energia vital de seres humanos. Uma pessoa é uma árvore que vai, ao longo da vida, estendendo seus galhos... o limite é de cada um.

Nem sempre há sol para todos ou nutrientes suficientes para permitir o desenvolvimento ótimo. Muitas vezes a árvore que tinha tudo para definhar floresce, pois, além das regras lógicas, sempre existe a surpresa e o mistério do que é o ser humano. Pois a árvore não é apenas uma árvore, ela é o símbolo da divindade. O símbolo do Ser. O ser é aquilo que, no humano, não pode nunca ser destruído.

O ser é o centro, o Deus que é o arquétipo da totalidade presente em tudo o que vive. A identificação com o ser, o real que não pode ser destruído, é a vivência da experiência mística. O momento presente, quando se quebra a dualidade... não se escuta a quebra da dualidade, mas é poderoso, como o big bang, explodindo silenciosamente no vácuo.

Mas é belo o romper do tempo. Como é belo!

O Ser mora no momento, escondido e sempre presente no agora. O medo de perder o momento e o apego ao que, ilusoriamente, se acredita ter, asfixia e mata o ser. Não permite que a árvore renda flores, que espalham seu cheiro e embelezam a paisagem, nem permite que dê frutos, que poderiam ser lançados livres ao mundo.

O momento é uma pétala, o momento é uma rosa. Na natureza das coisas, ele surge e passa, quem teima em mantê-lo preso, enclausurado no caixão da perenidade, vê tal rosa murchar. Rosa que é feita para abrir-se e libertar-se em queda livre. Tentar impedir a ação da gravidade, permitindo a queda inevitável é o mesmo que calar-se, quando a hora é de canto.

André C.

Monday, November 06, 2006

Onde estão? - Skank

"Abro os braços
Tanta emoção
Quando eu irei te ver?
No jardim, essas rosas
Que eu plantei
Mas eu não sei
Se estão
Mortas ou em botão

Fecho os olhos
Peço para Deus
Que tente entender
Esses versos e prosa
Que eu não sei
Se eu deixei em vão
Tocar a imensidão"

A vida e a sua cadência, ritmo belo, tocado com a maestria de um mestre do choro. E vive a poesia, desafiando o limite da palavra, apontando com o dedo em riste, para quem lê, um belo céu de eternidade.

Um brinde ao momento, que canta feliz: "sou o sempre".

André C.

Thursday, November 02, 2006

Caverna

O Baghavad Gita diz: "tudo o que é real não pode ser destruído." Ontem eu estava pensando nisso, buscando em mim tudo o que há que não me pode ser tirado. Fiz o exercício de me imaginar despido de várias coisas, até o último elemento. Queria e quero encontrar todos os elementos realmente meus, independentes de algo além de mim.

Fui cortanto a carne aos poucos. Sem meu trabalho, sem minha família, sem meu carro, sem mulheres, sem o curso de faculdade, sem amigos, sem conhecidos, sem minha deficiência, sem cadeira de rodas, sem histórias, sem livros, sem apartamento, sem pessoas, sem chuva, dias de sol, sem mundo externo. Sem nada que não coubesse inteiramente em mim. Buscando, em meu centro, aquela esfera indestrutível que sempre me acompanha, que sempre esteve lá.

Nesse ponto, vejo que não tenho nada. A parte disso, sou um monte de coisas.

Nada nem ninguém pode me tirar: minha imaginação, minha experiência e vivências nesse mundo, minha busca pela beleza, minha sempre afiada imaginação, meu corpo. Minha energia, que me circula todo o tempo. Minha poesia e minha expressão. Minha liberdade.

Havia um dragão negro que morava na caverna. Ele tinha tesouros e guardava uma donzela. Mas de nada podia desfrutar: nem dos tesouros muito menos da donzela. Sua missão: guardar e guardar e guardar. Ele era pesado e tinha asas curtas, preso firmemente no chão. Pois eu o vi se transformar, escama por escama, em prata, seu corpo transmutado no de um dragão chinês. Eu o vi partir da caverna, serpenteando aéreo, carregando o herói e a donzela, para longe.

Descobri que a caverna, agora iluminada, não era simples pedra, era na verdade um imenso templo, marcado pela quase eternidade pelas habilidosas mãos de um artista primitivo. Ali aprenderam os feiticeiros a conversar com os pássaros e reverenciar os grandes poderes. Ali, no ventre profundo da terra, se aprendem os símbolos que conduzem à vida.

André C.

Wednesday, November 01, 2006

Bem-aventurança

"Pondo-se no encalço da sua bem-aventurança, você se coloca numa espécie de trilha que esteve aí o tempo todo, à sua espera, e a vida que você tem de viver é essa mesma que você está vivendo. Onde quer que esteja - se estiver no encalço da sua bem-aventurança, estará desfrutando aquele frescor, aquela vida intensa dentro de você, o tempo todo."Joseph Campbell

Isso é eternidade, sonho de viver com brilho perene no olhar.

Preenchendo feito água o curso do rio que é só seu.

André C.