Friday, October 21, 2005

Saturday, October 08, 2005

Manancial

Eleu nasceu num dia talvez como outro qualquer, quando por um truque do destino, construiu-se ao longo de dez anos, ganhando linguagem própria. Seu domínio era o inglês. Hábil aluno de si mesmo que era, descobriu-se no português e entendeu de seu universo que tinha mais posses do que acreditava possuir. Tinha brilho esse tal sujeito, mas tateava no escuro, procurando a saída do universo sem nome. Era também um doce revolucionário'm, líder da revolução da unidade, colando as peças do si mesmo, se descobrindo em maravilha. Dizer lhe dá mais e mais forças. Dizer sem dizer, sem pensar, apenas sendo e consequentemente agindo e daí falando não feito um tratado, analisado/estudado/elaborado, mas como um manancial do qual tudo jorra.

O Domador de Dragões

O centro olha. Direita e esquerda, destra e sinistra. Direito, o certo, lei e nuvem negra, amontoado de coisas, confusa porém infinitamente criativa, cheio de energia e inteligência, mas imóvel e apegado a seus tesouros. O Dragão sem nome. É a situação. À esquerda, o dito incorreto, independente e definido, o dom das palavras em ação. A cura pelos dizeres sinceros. Eleu é um nome perfeito, a fusão do que existe dentro e a evolução, que só se consegue ao olhar pela janela O furacão que se olha e o doce demônio que desafia e sorri. Então tudo se inverte. À direita o que não pode ser, o que é, mas vai mudar. O tesouro imóvel, de pés firmes no chão. E a esquerda o que transcende o certo e o errado. Tal coisa não há. As coisas tem a propriedade de ser por si mesmas. Eleu é o futuro, ele conduzirá o torvelinho a novas paisagens. Em pouco tempo, em boa linguagem de mineiro, o projeto do "para-i-só" se tornou inviável e indesejável. O furacão grita pelo genocídio, tem dentes em seu olho, gira em torno de si mesmo, sempre. Não tem nome próprio e portanto não parece contas nos murais da forma humana. O outro, quando chamam "Hei" ele responde. Eleu seu nome, o homem com a força de domar furacões. O domador de dragões e torvelinhos. O homem do impossível. Dono de um cavalo brando, um homem que olhou através da grade e se emocionou. Eu pensei que ele era o outro. Mas o outro sou apenas eu.

Eleu Riai

Quando acho que estou olhando para fora, descubro que olho para dentro. Como sempre, Eleu estava parado, observando. Tinha aquele olhar misterioso de quem pára e mira de perfil. Seu rosto, sempre um mistério. Uma imagem que vale por palavras. Eleu tem força, isto é claro. Olho-o, pensando. Wolverine ou Ciclope? O animal que sou é a sombra do sol ao meio-dia. Um dia Dragão, chocando eternamente tesouros. Outro dia Cavalo, poderoso e tranquilo, pronto para ser conduzido pelo cavaleiro. Eu brinco com o dragão e cavalgo o cavalo. Não há mais sinal do homem-outro. Há unidade. Na outra ponta o anti-herói, que é o herói da história, o caminho para a frente. É hora, sempre foi a hora. Eleu sempre esteve ali, me esperando. Era a roupa aguardando seu espírito. Eu que num sonho cometi um crime o cometi por assassinato para que do corpo, como na mitologia babilônica, em que o corpo de Tiamat é matéria do mundo, se fizesse algo novo. Parece ainda faltar algo. Meus ossos ainda não são de metal. Meu ouro ainda é o ouro vulgar. Futuro Xamã ou Alquimista? A fornalha cada vez mais quente prenuncia um futuro que sempre esteve lá. Vida longa, travessia de menino, coração de homem-cavalo-dragão.

O eu no outro


Então, o que sobra? Quando o que é certo parece assim tão errado que não se pode aceitar. Quando você na verdade questiona o que te faz feliz? Ela era morena, talvez a mulher mais bonita de toda minha vida. Fui apaixonado por ela. Em sonho, meu desejo de vê-la de volta à BH, mesmo depois do ponto final. Ela também gostava de mim. A conquistei exatamente como acredito hoje que as coisas devem ser. Naturalmente, ela passava ou aparecia no mesmo lugar que eu estava e eu sorria. Conquistei-a com um sorriso. Mas como eu poderia naquele tempo simplesmente aceitar, sem luta, sem teatro, sem ser quem realmente me julgava ser? Não. Eu não era o sujeito simpático que sorria, que dizia, que admirava, que se movia. Essa felicidade era só uma máscara, acreditava. Essa máscara era para os outros, esse terrível monstro mitológico que era esse tal Outro. Ser feliz parecia corresponder a cumprir o que esperavam de mim. Avesso a autoridade, isso era assim algo inaceitável. Fazer algo pelo outro, como consequência de ser feliz em si mesmo era apenas seguir o Dharma, a exigência social. Ela foi embora num dia que poderia ter sido perfeito. "Por que ele olha para mim?" O ele era eu. Não, eu não queria enxergar. Ela tinha um nome, Ana C. Estranho dar todo esse salto para admitir o que é certo para mim. Hora de olhar para o homem parado, de terno, homem da palavra. Sou eu. Tão claro mas tão triste. O tempo que poderia ter sido. Nas minhas mãos a capacidade de pintar um Renoir, cores de vida, mas pintei um atormentado Van Gogh. Pensei um dia, "sou narcisista"? Talvez quisesse, o narcisista cabe em si mesmo, se basta. Eu não me basto. Eu desejo o mundo.

Uma lenda. Havia o criador e ele percebeu que, por ter começo, teria fim. Temeu ser morto por alguém mas descobriu não haver ninguém para matá-lo. Então ele sentiu solidão, pois estava completamente sozinho. Criou assim, fruto de seu desejo, as coisas do mundo, incluindo homens e mulheres. Terminou por amar sua criação. Não criei nada, já está tudo ai, é só olhar.

A janela se abre.

Tuesday, October 04, 2005

As mil faces


Percebo hoje quào complexa é a minha (e acho que de todos) personalidade. Parece que o alvo mais vísivel é sempre um EU como instância consciente e prioritária em nossa paisagem mental. Que ele, soberano, reina acima de todos, como um imenso olho postado sobre uma torre de marfim. É estranho perceber que esse eu, no fundo, é uma parte apenas, não menos importante que outra, mas apenas o princípio da história.

Nunca entendi como era possível haver tantas "pessoas" diferentes dentro da minha cabeça. Não era possível, devia haver culpados e coisas a serem cortadas, pessoas a serem encarceradas, pois como no filme Highlander, só podia haver um.

Só começou a dar certo quando parei. Culpados? Incoerentes? Incorretos, pra não dizer errados? Bem? Mal? Não, somente partes a serem admitidas e assimiladas.

O Eu não é uma parte, não é aquilo que mais fácil e por mais tempo se identifica e fica presente. O Eu é um conjunto, uma totalidade reconhecida e construída. Existe como ato, como imagem, como palavra. Eu tenho muitas faces. Não me atrevo a dizer que outros as tem, quanto a isso só posso desconfiar, como bom mineiro. Será que Descartes tinha algo de mineiro?

Quando comecei a escrever esse texto estava mais inspirado.

Sunday, September 25, 2005

O Real experimentado

Música era por fim o que ele chamava por vida sua comida e o ar de cada respiração em seu Tao caminho virtuoso Kundalini o desenrolar da Serpente som universal do mundo OM o alpha uno agrupando todas as palavras a seu redor tal qual rede de pesca Oroboro a inauguração do tempo cíclico abandono do paraíso e início da maturidade Sem saber era apontar o olhar para frente sem escuridão pois o ouvido por fim era o tato e a visão que trazia às suas mãos o mundo inteiro e sem palavras Do violino instrumento do grito ou baixo instrumento do sussuro Tudo sempre costumava dizer-lhe alguma coisa No sem-sentido das coisas elas começavam aos poucos se relacionando tal qual homem mulher iam primeiro pelos olhos o toque a fala a palavra proximidade e se fundiam em sexo Diferente do sexo na musica as coisas nao costumam se separar é tudo totalidade um grupo de palavras e atos num nível de experiência não pode ser percebido de outra forma que nao tomando-lhe em uníssono o todo A beleza e o desenvolvimento da visão central self total agrupamento que forma o ser A música é algo orgânico que vive e respira ganha vida a cada nova execução Ouvir música é enxergar a realidade das coisas sem interferência das palavras Ouvir música é estender as mãos e tocar o quente e o frio ao mesmo tempo Ouvir música é sentir o gosto do prato preferido que vem de surpresa

Monday, September 19, 2005

Ficção entre Vizinhos

Dada a escuridao que cobria o mundo naquele momento, tudo parecia deverasmente simples, como se um olho fechado pudesse desfazer o que um suposto criador tinha feito – também daquela falta de luz primordial. Abriu os olhos, e seu mundo foi feito naquele exato momento, seria o começo de tudo, uma nova vida, diferente de qualquer fantasma de antigamente, de qualquer memória dolorosa, guardada num túmulo, à não só sete palmos de distância, mas sete léguas para dentro da terra, ou sete chaves trancando as correntes.

Abriu a porta da rua decido, dali para adiante, tudo em sua vida seria resolvido de uma forma simples. Olharia sim para a vizinha e em seu sorriso radiante mostraria que ela, Joana, para ele, era o primeiro dia de sol, era como andar sozinho no meio da rua, na contramão, sem carros, na companhia de nada mais que um bando de árvores e suas folhas depositadas no chão. Mas não foi dessa vez, Joana não desceu pelo elevador e não o encontrou na garagem, como fazia todos os dias. De amanhã não passará, pensou o nobre e silencioso Antônio. Uma das fechaduras, ou a distância de sete léguas foi percorrida naquele segundo. O pensamento se perdeu nos cálculos, na velocidade física necessária para percorrer tantas léguas num único segundo.

Pip. Pip. Ouviu o carro apitando e viu sua mão pressionando o pequeno botão esquerdo do controle retangular, com bordas circulares. O que comandava sua mão não era o pensamento, era algo maior, o hábito diário. Pensou por uns segundos se não era apenas um conjunto de hábitos, acumulados ano após ano, talvez momento após momento, talvez naquele exato instante, quando percebeu que não apertara o botão de sempre do controle, o esquerdo. Não, talvez aquilo fosse uma nova manifestação de sua recém descoberta individualidade.

Quando se sentou no assento de pelica de seu carro velho, e sentiu a porta fechando novamente por um comando do cotidiano e todo seu peso etéreo, gostou, como sempre, de ouvir o barulho que, pelo menos por alguns momentos, o lacrava isolado do mundo. Ver as ruas através das janelas limpas era como assistir a um vídeo pornô, a imagem tinha tanta nitidez que parecia real, mas a realidade, por trás de uma tela era mais segura que a realidade em si, era a segurança e a fé da formiga que se imagina ascendendo aos céus, sem perceber que abaixo dela se encontra um vidro, que de tão transparente parece não existir. Talvez fossem em mais números os vidros que envolviam a ele naquela hora do dia.

O poder de um dedo era algo impressionante. Se um sozinho era a chave para a sobrevivência humana, dois, unidos, tinham poderes inimagináveis. Antônio imaginou-se virando a chave que ligava uma bomba atômica com a força de mil sóis, e a resposta do carro foi a explosão de tudo – imaginou um míssil caindo sobre o prédio, explodindo principalmente o apartamento do décimo-segundo andar, no qual se encontrava, sempre dormindo, sua mulher, seus filhos inúteis e sua sogra recém lipo-aspirada. Quando engatou a ré, posicionando o carro de frente para o portão eletrônico, era um sorriso o que naquele momento decorava seu rosto.

Envolvido pelo som monótono e mecânico de um motor envelhecido de portão, a rua se revelava, lentamente, como se um imenso obstáculo se arrastasse lentamente e deixasse o caminho livre, o que deveria ser a grande metáfora da vida. Uma imensa porta se abrindo, uma série de obstáculos se retirando do caminho, para dar passagem a uma nobre autoridade. Ah, se ainda vivesse no tempo dos Reis! Seria ótimo, com uma única condição, que ele Antônio de Marques fosse um dos escolhidos para viver acima de qualquer nobreza, como único e superior mandatário. Mas voltou a sua condição de plebeu imediatamente após ouvir algo que o acordou: o som da madeira rangendo, se abrindo, da porta do elevador, empurrada pela mão alva mas firme de uma jovem, enquanto o pé, aquela parte do corpo que odiava, mas que para ela caia tão bem, envolvido por uma sandália, apontaria e tocaria o chão coberto de rosas, dando vistas para os maravilhosos dedinhos, e acima deles, surgindo aleatoriamente pela fenda da grande saia, pernas e coxas, movidas acima pela linha da cintura, a barriga levemente sobressaltada - pois a imperfeição era, para as mulheres, o que as tornava em alguns instantes perfeitas – e sobre eles os seios, que não imaginava, pois pertenciam ao universo cego do tato, depois o pescoço e o sinuoso encaixe com a caixa toráxica, o que mais gostava nela e acima seu rosto, seus olhos aleatórios, pois a cada dia era uma surpresa, tristonhos, alegres, lascivos, tranqüilos, ressaqueados – tantos olhos que não parecia caber numa só pessoa – e que hoje apontavam para baixo, talvez para contemplar os lábios, esses sim, infinitamente belos e pequenos, destacados por um discreto brilho. Gostava especialmente de seu cabelo curto, que, de forma alguma lhe dava um aspecto andrógino, pelo contrário, ressaltava toda uma feminilidade e o que parecia uma imensa sabedoria de não se enconder por trás de cabelos longos, ou de máscaras de maquiagens. Como tanta simplicidade poderia despertar tanto desejo, e, por sua vez, tanta angústia, pois assim Antônio parecia constantemente se relacionar com o mundo. Cada passo, cada toque no chão era uma badalada enquanto ele, o pobre, se encontrava preso na sala do sino, em penitência – a alegria de um pássaro amarelo que, trancado, só pode tremer diante das antigas experiências mal resolvidas, por não reconhecer o que é ser feliz, que a felicidade é a promessa de que novos dias azuis seguirão as noites tristes e chuvosas, bastando que, para isso, se encare o momento, que é todo o medo.

Enquanto ele torcia para que o portão se abrisse a tempo de não vê-la, pois não ser capaz de cumprir suas próprias expectativas como o novo homem seria algo terrível, o mundo e o tempo conspirava para sua felicidade, e o portão simplesmente parou e voltou, se fechando. Toc. Toc. Toc. Antes de se dar conta, Antônio já sorria para a janela do passageiro, lá onde ela tocava o vidro, fazendo um leve barulho com a ponta dos dedos, e ele abriu a janela e ela, com um sorriso discreto, dourado pela luz de um sol que magicamente parecia ter surgido acima dos dois, pediu carona, pois sabia que ele, Antônio, trabalhava próximo dela e que saiam sempre no mesmo horário, e que – já dentro do carro – se sentia encabulada demais para pedir isso a ele antes.

Sunday, September 18, 2005

O Morto II


Ainda meio grogue, levantei do chão, apoiando a mão esquerda no banco verde da praça. Limpei a poeira que se depositava em minha roupa e estava pronto para outra. De pé, olhei para frente. Ele estava de costas para mim, caminhando em seu terno bem cortado. Gargalhei, gritando "Ei!!! Olha pra trás..." Quando ele se virou, recebeu a coronhada no nariz e caiu no chão. "Esqueceu o revólver..." disse novamente e com um novo golpe, ele rolou no chão. O terno não estava mais tão bonito como antes. Olhei para o chão, ele tinha agora o rosto vermelho de sangue e eu também. Me ajoelhei e cuspi avermelhado. Tinha esquecido. Nos levantamos, prontos para um ataque cara a cara. Um tiro em troca de uma coronhada. O inconsciente fazia com que a troca fosse justa. Enquanto avançávamos, como deuses do Valhalla, incitados pelo prazer da guerra e morte, ouvimos uma terceira voz: "Parem. Agora." E era o desejo incondicional e sem resistência de um garoto. 10 anos devia ter, no máximo. Parado, sozinho, ele nos olhava, com certa raiva despertada. Encontravam-se o Vendedor, o Artista e o Garoto. O entendimento se fazia completo, sem mais nenhuma palavra.

À frente, na avenida, virando a esquina, um tanque de guerra, acompanhado de soldados. O volume do mundo se agigantava e o Garoto perguntou, se escondendo atrás do banco: "Por quem vocês vão lutar agora?"

O Vendedor e o Artista de reuniram, apertando mãos e correram para a frente. Rápido como um pensamento, desarmaram um dos guardas, transformando os outros em poeira. O tanque, com um desejo, foi cingido por um raio.

Thor e Loki. Apolo e Dioniso. Melkor e Manwë. Deus e Lúcifer.

Thursday, September 15, 2005

Ancour

As quatro da manhã morria de um ataque cardíaco fulminante o pintor Dominique Ancour. Além de seus dedos carcomidos pela tinta e sua barba eternamente por fazer, imortalizada nas caricaturas e numa grande homenagem imóvel, posta na praça dos Quinze, Dominique levava para a tumba o maior segredo de sua arte.

Já havia muitos anos que acadêmicos e membros da plebe debatiam por um sem fim de tempo o que era sem dúvida o maior segredo de Ancour. O que começara em uma simples percepção de um observador na galeria, tinha se transformado em teses que transformaram mestres em doutores, não só em história da arte, mas para na psicologia, filosofia e ciência política. Dominique fora descarnado, desconstruído e reerguido por diversas vezes, num encontro de porquês dos mais variados matizes.

Mas quem tinha a resposta final? Para os historiadores, via-se a inovação da dinâmica surgida da multiplicidade de perspectivas e potencialidades entre o apolíneo e o dionisíaco, numa perspectiva amoral. Enquanto que os cientistas políticos viam a síntese monádica da inexistência de fronteiras que outrora definiam a polaridade de um mundo. Os psicólogos viam obviamente um trauma, e a arte como sintoma da mente de um novo homem, que para os filósofos Nietszcheanos era a viva encarnação do Zaratustra.

O mais curioso é que o tal fenômeno acadêmico atingira, como nem Dali o tinha feito antes, a sociedade dos homens comuns. Era algo estudado então pelos sociólogos, pois Dominique Ancour levara a grande arte novamente ao mundo. Das criptas e sarcófagos dos intelectuais, do prazer auto-erótico da teoria, surgia algo capaz de atiçar a curiosidade dos leitores e homens comuns.

Ancour morreu sem dar resposta à grande pergunta de sua vida: o quadro estava ou não de cabeça para baixo?

Liberdade(?)

Ah, liberdade!
Que gosto amargo tem,
Parada, como um nó na garganta.

Ah, liberdade!
Eu, que não sou de ninguém,
Sou só mais um Zé no mundo!

E se eu me chamasse Raimundo,
Este seria apenas um plágio,
Mas nunca um grito, de indignação!

Que liberdade, se minhas mãos estão atadas
Se meu silêncio ainda contempla o mundo
Se não há voz, grito ou sussurro
Que tome conta de mim?

Sunday, September 11, 2005

O morto

Click. Apontou o revólver para minha cabeça, enquanto eu, distraído, estava sentado num banco. O banco, verde com pedaços enferrujados, estava apoiado no meio da grama, colocado ali provavelmente por engano, pois pertencia ao chão áspero de cimento. Mas aquele não era dia nem hora comum. À frente, depois do fim da grama e da faixa estreita do meio-fio, havia uma enorme avenida, começando da praça e seguindo reta em frente, como se fim não tivesse. Mas tinha fim, provavelmente no encontro entre as colinas e o céu, lá onde se formava o horizonte. Nem uma viva alma passava ali por perto, nenhum grupo fazendo cooper, grupo de piquenique ou grupo de amigos conversando. Eu, sentado, nada de posses e apenas um revólver pressionado contra a minha têmpora esquerda. Não estava incomodando, o cano pressionava só de leve a pele, dando espaço para que eu me virasse para ver o atacante. Eu não olhei. Um tiro só nem deve doer muito.

Daí eu lembrei. O sujeito com o revólver ia ficar sem graça e me julgar mal educado caso eu não olhasse. Me ensinaram a ter respeito pelas pessoas ai fiquei imaginando: o cara matar alguém sem nem olhar no olho? Combatendo a preguiça, fui virando minha cabeça devagar. O cano da arma encontrou abrigo na minha testa, como se tivesse sido desenhado para aquela posição.

Havia algo de familiar no rosto. Os traços, um tanto grossos e um sorriso de dentes pontudos, meio insano. Os olhos, profundos, que só se revelavam verdes a um segundo olhar. O rosto, grande, complementando a cabeça arredondada. O cabelo, curto. Era eu, igual, mas diferente. Apertou o gatilho, a cápsula deflagrada adentrou meu pensamento, que se avermelhou. Um golpe seco, o corpo caindo para o lado, caindo sobre o banco para terminar no chão.

Descarreguei as cinco balas restantes do .38 no corpo. Puro capricho. Exagero estético. Eu só queria. Estranho se ver no chão, morto, sem céu, sem nada. Sem alma fugindo pelos olhos. Um pé depois do outro, fui andando para a avenida. O revólver já era inútil, joguei fora.

Saturday, September 10, 2005

Mudanças

Desde sempre eu tive uma fé enorme na mudança, na capacidade que um ser humano tinha de se transformar em alguma coisa, no compromisso com o futuro que todo mundo tinha e que isto era algo que nos acompanhava como uma tatuagem, ou que corria no sangue, lá na raiz mesmo, no nosso DNA. Anos foram se passando e o choque para a vida adulta começou a desmistificar e destruir praticamente tudo o que eu acreditava. Uma por uma, foram sendo jogadas no lixo várias e várias coisas que eu pensava, minhas crenças, meus ideais e mesmo os meus sonhos. A mudança, último alvo, também acabou por ruir.

Mas acredito num processo de destruição criativa. O que aconteceu em mim foi algo profundamente necessário, algo inevitável, com um momento certo para acontecer. Sou um tanto adepto do caos. A destruição sem sentido não serve de nada. Mas a destruição que acontece para erigir algo em seu lugar, como a queimada que enriquece o solo para dar novas safras, ou para o plantio de novas culturas, tem seu sentido. Se há algo que nesse mundo eu considere sagrado é essa capacidade de morrer e renascer que nós temos.


O mais curioso de tudo é que há algum tempo eu tinha uma boa idéia de que tipo de pessoa, de que tipo de homem eu ia me tornar. Só que a gente nunca sabe como será o futuro, pois a nossa mente no futuro não pode ser pensada no agora. É olhando para trás que a gente vai conseguir um senso de processo, uma idéia do que aconteceu. Um professor meu disse que é difícil prever o futuro pois o paradigma do futuro é diferente daquele do presente. O modo de pensar do presente não é o modo de pensar do futuro. Heis a mudança realmente radical. Olhando para trás entendo que eu pensava diferente ou, na verdade, eu não me conhecia muito bem para me entender o suficiente.

Ter um senso poderoso de identidade é algo que mexe fortemente com as pessoas. Quando a gente percebe que precisa abaixar o volume do mundo externo e nos focarmos em nós mesmos, entendendo como funcionamos, ficamos mais livres. Liberdade é, no fim, um senso de si mesmo inabalável. Um atleta quando faz uma performance grandiosa o faz não só por estar condicionado fisicamente, mas por ter conquistado um senso de consciência. Ele percebe em si mesmo um centro, um ponto fixo, que lhe serve de apoio.

Gosto de pensar que esse centro é como o olho de um furacão. Tudo em volta pode estar girando mas ali, no centro, as coisas continuam tranquilas e sob controle. Tudo pode ser destruido, lançado para fora do seu centro original. Aqueles que reconhecem em si mesmos um centro não serão lançados contra os próprios desejos na tempestade, de um lado para o outro, rodopiando continuamente. Apesar de poderem se relacionar com o ambiente externo, eles não estarão submetidos a todos os efeitos das intempéries pois haverá sempre para onde voltar.

Acho que, no fundo, a gente muda menos do que acredita. A mudança que a gente percebe está muito mais no reconhecimento do que realmente somos. Está no autoconhecimento. Mais importante de tudo é que esse autoconhecimento só acontece com a experiência, com a prática. A experiência, não uma experiência meramente cronológica, pois tem gente que apesar de velho no fundo não aprendeu tanta coisa, nada do gosto, da cor, do cheiro e do sentimento. Tudo o que, no mundo, tem primazia.

Monday, August 29, 2005

Tendo a Lua

Hoje joguei tanta coisa fora
Vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora.
A casa fica bem melhor assim

Paralamas. Falar o que mais dos Paralamas? Coisa de meus últimos dias, da última semana, passado se desfazendo e "desassombrando". Liberdade é coisa diferente do que a gente imagina, ela sempre vai exigir muito mais da gente do que pensávamos quando não a possuíamos. Corta-se um pedaço da personalidade, como se, da noite por dia, nossos pés tivessem sido cortados e, a partir de agora, tivéssemos um par de asas. O que fazer quando você não tem mais pés e ainda parecem estranhas aquelas duas asas nas suas costas? Asas sem jeito, sem camisa que as cubra, denunciando a diferença, pondo exposta o que você realmente é naquele momento. Mas ambas tem funcionalidade, a gente vai aprendendo, vê que dá pra flutuar, que não é necessário subir aos altos céus, aos 10.000 metros de altitude, vendo tudo pequeno, lá da distância. Coisa de gente louca.

Sunday, August 28, 2005

Deu no jornal

Na manchete, algo pouco comum, um tipo de notícia cuja informação caberia a uma simples nota, de poucas linhas. Sim, a noite, por motivos cardíacos, tinha morrido um poeta, desses que talvez ficasse conhecido mais pelo título dado por aqueles que pouco sabiam realmente de poesia que propriamente pelo que ele escrevia. É, tinha coração o tal poeta, tentado a virar poeta beat, poetizando sua vida crua de ser humano. Todo o resto seria fantasia na tal vida do tal escrevinhador. Caira, sem alarde, no chão, ganhando um ferimento na cabeça ao atingir o mármore frio. Se ele não tivesse morrido do ataque cardíaco, provavelmente carregaria para o resto de seus dias uma cicatriz. Externada, na testa, ela ficaria cravada no cérebro tal qual uma raiz com múltiplas ramificações. Uma cicatriz tão profunda que, se retirada por um cirurgião plástico continuaria crescendo para dentro e voltaria a ser objeto de decoração.

Mas havia algo de extraordinário naquela morte. O corpo tinha sumido logo na primeira noite. Segundo alguns funcionários da morgue, acometidos de alucinações noturnas, típicas de trabalhadores desse tipo de estabelecimento, ele tinha saído andando. Diziam que o homem parecia mais escuro que antes, tinha também olhos um pouco menos brilhantes que de um vivo, de uma coloração sobrenatural-esverdeada.

Friday, August 26, 2005

Personalidade

Um embolado novelo de linha
Que distendido corta.
E fere e se auto-fere e se imola
E se perde, perde a hora,
O momento, o encontro.

Personalidade, um ninho de fiapos,
Catados e ajuntados ao longo de outra linha
Que começa, corta e termina.

Desejo

Caso entendas essa poesia
chama-me,
ou caso não possas
mas queiras fazê-lo,
ainda sim, chama-me
pois me conheces
por conheceres
o que há de humano
em todos os versos.

Thursday, August 25, 2005

Auto-análise

Enquanto a vida se desdobra
eu vejo a lua nova.
Escurece a noite
e eu fecho a porta.
Do meu canto recluso
olho então para o céu
que todavia ainda não existe.

Olho para o mundo
eu estou em todo ele.
Sem olhar de verdade
vejo um quarto vazio
e meu silêncio dizendo:
ainda é cedo.

Virão outras luas,
outros sentimentos
outros rostos.
Eu serei outro
mas na semente o mesmo
dormirá sonhando.

Noutro dia
eu vejo a lua cheia.
Esclarece a noite
e eu abro a porta.
Olho para cima
e existe céu
céu além dos prédios,
céu além de mim.
Eu não olho para mim
há todo um mundo;
então meu silêncio cessa
e eu grito: - identidade -
essa é a hora.

Saturday, October 16, 2004

Sonhos, árvores e famílias

O alemão tinha morrido naquele mesmo dia. Sua morte coincidiu com o nascimento da aurora, como se o anúncio de uma nova primavera estivesse exposto, no céu, no clima, produzindo sorrisos e satisfações, envolvendo a todos.

Em torno de um grande ônibus se reunia uma numerosa família. Ouvia-se o burburinho de vozes como as folhas de uma árvore sopradas por um vento gentil e outros sons de objetos como malas, pacotes e presentes esbarrando uns nos outros, farfalhando como um som de fundo de uma bateria de jazz.

Se fosse posta uma câmera no céu, apontada para baixo, mesmo sem que víssemos os rostos e as expressões de cada um deles, perceberíamos que estavam felizes, pois, como uma sinfonia, era óbvia a harmonia, mesmo para ouvidos pouco treinados. Pois se há algo universal, sem dúvida é o sentido da beleza. Esse sentido de beleza se aprofundava além da superfície, era todo um conjunto que simplesmente parecia funcionar.

A casa tinha parede e teto, tinha varanda e dois andares, era uma casa comum, mas que chamava atenção por alguns motivos: tinha janelas muito amplas e portas gigantes, geralmente abertas, prontas para a luz dos dias, mas também para a escuridão que por vezes era irradiada.

Uma frondosa árvore crescia ao lado e quanto o vento resolvia soprar, ela batia os galhos numa das janelas. Um dos anciãos daquela família contava um dia ao neto que a árvore pedia para entrar na casa, pois não gostava de chuvas fortes. Porém ele não podia permitir, as folhas cairiam e sujariam o chão, além do mais, onde já se viu uma árvore que precisa de casa? Era uma árvore talvez medrosa, como um certo leão de uma outra história.

Era uma árvore distinta de todas as outras, a árvore medrosa era da família. Talvez fosse medrosa pois tinha quem a protegesse, talvez nem fosse medrosa, apenas um tanto tímida. De fato, nela foram amarrados balanços de crianças que eram na verdade pedaços de madeira. Ela tinha também tatuagens, eram corações com nomes, eram lembranças de pique esconde.

De quatro em quatro vezes por ano, ela estendia um tapete de folhas alaranjadas, com uma particularidade: elas caiam todas de uma só vez, exatamente no mesmo dia. Nesse dia fazia-se por tradição os casamentos dos membros da família com os membros de outras famílias, era talvez o último dia do outono prenunciando o frio de um inverno rigoroso. Os recém-casados eram forçados a passar por um certo período de reclusão, com dois possíveis efeitos decorrentes disso.

Dizia-se que a árvore tinha o dom de dizer a verdade. Ou o frio e a proximidade confirmavam os votos de matrimônio ou terminavam por quebrar o casamento. A árvore tinha o poder de afirmar se o amor seria realmente infinito enquanto durasse, de afirmar se era verdadeiro e se sobreviveria a um encontro entre duas pessoas.

Quando chegava a primavera, uma gama de novas cores chegava para aquela árvore. Ela era rica não só de verde, mas em variações dele, e em cores marrons, e em tons de terra, e em flores vermelhas e amarelas. À sombra da copa coberta fazia-se churrascos, encontros e rodas de violão. Mas o que de mais importante acontecia era um ritual. Com alguns galhos emprestados da árvore, que provia a todos, fazia-se uma grande fogueira. Aos poucos, chegariam pessoas e cada uma, à sua maneira, tomaria um lugar. Ergueriam taças e copos e canecas, pois tudo era permitido, numa festa que deixaria Baco surpreso, pois além de vinho, havia a cerveja e a aguardente, pois além de risos, haveria suspiros e pequenas e passageiras tristezas, pois além de amizades, floresceriam novos e insuspeitos romances. A fogueira era a metonímia do mundo, pois tudo era possível, cada um olhava por si mesmo mas ouvia com reverência ao outro, dividindo o que a humanidade parecia ter de mais humano.

Friday, October 08, 2004

Primavera

Um grito que não veio do escuro. Foda-se o escuro, isso é coisa de criança. Tudo bem, sou um tanto criança ainda, mas uma criança que sabe dizer: vai tomar no seu cu, desgraçado! Vá a merda com esse terninho de bosta que todo dia você coloca, foda-se o seu pentinho amarelinho que você passa cuspe pra ver se teu topete fica parado no mesmo lugar. Seu bosta de araque, com suas roupchas espertas de playboy e seus dizeres de merda. Quer legitimar o lucro, seu escravo dos infernos? Faça como queiras que eu estou pouco me fudendo. Que coisa poética né não? Vai pra sua fazenda, seu animal! E eu tou pouco me lixando pro cara que, contrário de você, levanta todo dia, toma a porra da cachaça no bar e vai bêbado da construção. Por mim, pode se jogar do topo! EU não acredito mais em você, seu Zé ninguém! Tão escravo, tão orgulhoso e tão desgraçado quando o engomadinho. Ninguém vai lutar por você. E os que acreditaram em você tão pouco se lixando! Se a tal revolução viesse, você seria transformado em alguma coisa útil pro mundo. Sim, você abandonaria seu mundo animal e seria forçado a pensar um pouco mais nas coisas? Começo a incomodar? Pois é, quer ser o dedo no seu olho, seu bosta. Mas não é a bosta que é o esterco e não é o esterco a base para a primavera? Pois é assim que penso em você, meu caro. Um improvável futuro na primavera.