A Virgem Maria - Manuel Bandeira
"O oficial de registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa Casa e o administrador do cemitério de São João Batista
Cavaram com enxadas
Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma cova mais funda que o meu suspiro de renûncia
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei
Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer i n s i s t e n t e m e n t e
Que fazia sol lá fora."
Me identifiquei com o poema. Sobrevivi a todos os enterros que tentaram promover para mim, à revelia. Antes eu atacaria em retorno os coveiros com suas próprias pás. Hoje não me importa. Podem enterrar e construir por cima a lápide, acreditando que estou no túmulo. Enterrem o que quiserem. Eu estarei bem distante.
Blog pessoal de André Camargos, publicitário por profissão e escritor por hobby. Textos diversos como poemas. crônicas, críticas de livros e sugestões de leitura.
Wednesday, June 28, 2006
Friday, June 16, 2006
Outra do Cream
Swlabr
Coming to me in the morning, leaving me at night.
Coming to me in the morning, leaving me alone.
You've got that rainbow feel but the rainbow has a beard.
Running to me a-cryin' when he throws you out.
Running to me a-cryin', on your own again.
You've got that pure feel, such good responses,
But the picture has a mustache.
You're coming to me with that soulful look on your face,
Coming looking like you've never ever done one wrong thing.
So many fantastic colors; I feel in a wonderland.
Many fantastic colors makes me feel so good.
Rock, psicodelia, Eric Clapton. Deu no Cream, um power trio, na verdade O power trio, com um som distinto de qualquer outra coisa que eu já ouvi. Formação: Jack Bruce (vocal/baixo), Ginger Baker (bateria) e, claro, Eric Clapton (segundo vocal/guitarra).
Coming to me in the morning, leaving me at night.
Coming to me in the morning, leaving me alone.
You've got that rainbow feel but the rainbow has a beard.
Running to me a-cryin' when he throws you out.
Running to me a-cryin', on your own again.
You've got that pure feel, such good responses,
But the picture has a mustache.
You're coming to me with that soulful look on your face,
Coming looking like you've never ever done one wrong thing.
So many fantastic colors; I feel in a wonderland.
Many fantastic colors makes me feel so good.
Rock, psicodelia, Eric Clapton. Deu no Cream, um power trio, na verdade O power trio, com um som distinto de qualquer outra coisa que eu já ouvi. Formação: Jack Bruce (vocal/baixo), Ginger Baker (bateria) e, claro, Eric Clapton (segundo vocal/guitarra).
Cream
World of Pain
Outside my window is a tree.
Outside my window is a tree.
There only for me.
And it stands in the gray of the city,
No time for pity for the tree or me.
There is a world of pain
In the falling rain
Around me.
Is there a reason for today?
Is there a reason for today?
Do you remember?
I can hear all the cries of the city,
No time for pity for a growing tree.
Uma das maiores bandas de todas.
Outside my window is a tree.
Outside my window is a tree.
There only for me.
And it stands in the gray of the city,
No time for pity for the tree or me.
There is a world of pain
In the falling rain
Around me.
Is there a reason for today?
Is there a reason for today?
Do you remember?
I can hear all the cries of the city,
No time for pity for a growing tree.
Uma das maiores bandas de todas.
O Nome da Rosa
O Julgamento
O Mago
O Julgamento
O Eremita
(Apesar de ter achado o filme Código Da Vinci um saco, fiquei com algumas idéias na cabeça.)
Um enigma de esfinge pra uma egípcia.
O Mago
O Julgamento
O Eremita
(Apesar de ter achado o filme Código Da Vinci um saco, fiquei com algumas idéias na cabeça.)
Um enigma de esfinge pra uma egípcia.
Sonhos
Outro insight. Parece que meus sonhos vem sempre em 3, distanciados temporalmente entre si. Ontem liguei o cavalo ao cavaleiro e ao campo de futebol. Hoje lembrei de um outro sonho.
Estava eu e um colega conversando numas nuvens espessas, acima, bem acima de um estádio de futebol. Esse colega estava no sonho por ser um grande amigo, desses de pouco tempo mas significativos. Engraçado, minhas amizades de verdade acontecem no silêncio. Dispensam palavra ou conhecimento.
Ambos sabemos que há um monstro lá embaixo, algo que está matando as pessoas. A única coisa que mata pessoas, eu acho, é o tempo. Meu amigo me chama para ir lá embaixo, participar do jogo, e pula, caindo para baixo das nuvens. Eu fico sozinho, com medo, e não desço.
O de cima, superior à realidade, cheio de conhecimentos teóricos e sonhos de beleza num mundo sem tempo nem morte nem realização.
O de baixo, o menino mudo que anda com dificuldades, entrando em campo despreparado, armado apenas da própria teimosia e coragem, submetido à materialidade e a recusa de viver uma vida, se ela não for perfeita.
E o cavalo, veículo, vigor, força, livre mas batendo cabeça.
E o terceiro, ainda não anunciado. O resultado da soma dos 2, o cavaleiro imperfeito, mas real, corajoso e conectado a realidade, mas ligado à transcendência e ao Ser do mundo sem tempo.
O Ser que é, simplesmente, a totalidade de um sujeito.
Me veio outro sonho. Uma garota de quem eu gosto. Ela toca um piano com 3 teclas. As 3 teclas, em conjunto, são destacáveis do piano. Ela me mostra A,B ou C. Diz: "Quantas combinações dá pra fazer com isso?".
Mais outro. Meu analista, na janela do carro, me diz: "Lembre-se, o quadrado é perfeito, mas não é completo." E eu peço que ele me ajude, através da análise, para que eu me sinta mais inteiro.
Mas a análise não se presta a isso. A análise tem o fim de tornar a incompletude, a falta que define o ser humano, mais suportável. Diz Freud que queria tornar a miséria da vida humana em um sofrimento mais tolerável. Buda diz: toda vida é sofrimento. E o objetivo dele é o mesmo: lide com o sofrimento e torne-o possível.
O triângulo, me lembra triângulo amoroso e também a trindade. O quadradro, me lembra um ringue, a carta do Imperador e a idéia desta ser a única forma perfeita criada pelo homem.
Só através da batalha se construirá esse quadrado perfeito. Só no sangue. Familiar isso, não? Quantos mortos ao longo da história? Quanto sangue derramado para construir a cidade de deus?
Transmutar o Ego-Dragão para o Sábio-Dragão, equilíbrio de bicho que vive na terra e no céu, como Shiva, um pé sobre o anão da ignorância e o outro levantado, erguido no ar.
Ainda ouvindo Caetano Veloso:
Mora na filosofia... pra que rimar... amor com dor?
Por enquanto me falta o que escrever.
Estava eu e um colega conversando numas nuvens espessas, acima, bem acima de um estádio de futebol. Esse colega estava no sonho por ser um grande amigo, desses de pouco tempo mas significativos. Engraçado, minhas amizades de verdade acontecem no silêncio. Dispensam palavra ou conhecimento.
Ambos sabemos que há um monstro lá embaixo, algo que está matando as pessoas. A única coisa que mata pessoas, eu acho, é o tempo. Meu amigo me chama para ir lá embaixo, participar do jogo, e pula, caindo para baixo das nuvens. Eu fico sozinho, com medo, e não desço.
O de cima, superior à realidade, cheio de conhecimentos teóricos e sonhos de beleza num mundo sem tempo nem morte nem realização.
O de baixo, o menino mudo que anda com dificuldades, entrando em campo despreparado, armado apenas da própria teimosia e coragem, submetido à materialidade e a recusa de viver uma vida, se ela não for perfeita.
E o cavalo, veículo, vigor, força, livre mas batendo cabeça.
E o terceiro, ainda não anunciado. O resultado da soma dos 2, o cavaleiro imperfeito, mas real, corajoso e conectado a realidade, mas ligado à transcendência e ao Ser do mundo sem tempo.
O Ser que é, simplesmente, a totalidade de um sujeito.
Me veio outro sonho. Uma garota de quem eu gosto. Ela toca um piano com 3 teclas. As 3 teclas, em conjunto, são destacáveis do piano. Ela me mostra A,B ou C. Diz: "Quantas combinações dá pra fazer com isso?".
Mais outro. Meu analista, na janela do carro, me diz: "Lembre-se, o quadrado é perfeito, mas não é completo." E eu peço que ele me ajude, através da análise, para que eu me sinta mais inteiro.
Mas a análise não se presta a isso. A análise tem o fim de tornar a incompletude, a falta que define o ser humano, mais suportável. Diz Freud que queria tornar a miséria da vida humana em um sofrimento mais tolerável. Buda diz: toda vida é sofrimento. E o objetivo dele é o mesmo: lide com o sofrimento e torne-o possível.
O triângulo, me lembra triângulo amoroso e também a trindade. O quadradro, me lembra um ringue, a carta do Imperador e a idéia desta ser a única forma perfeita criada pelo homem.
Só através da batalha se construirá esse quadrado perfeito. Só no sangue. Familiar isso, não? Quantos mortos ao longo da história? Quanto sangue derramado para construir a cidade de deus?
Transmutar o Ego-Dragão para o Sábio-Dragão, equilíbrio de bicho que vive na terra e no céu, como Shiva, um pé sobre o anão da ignorância e o outro levantado, erguido no ar.
Ainda ouvindo Caetano Veloso:
Mora na filosofia... pra que rimar... amor com dor?
Por enquanto me falta o que escrever.
Veloso
If you hold a stone
hold in your hand
if you feel the weight
you'll understand
ou
Se você segurar uma pedra
segure-a na sua mão
se você sentir o peso
você vai entender.
Esse Caetano Veloso, meio sem querer, disse uma das coisas mais poéticas que já ouvi. Se você sente o peso da pedra não irá jogá-la em ninguém. Dai a idéia de pecado, essa invenção ridícula, perde completamente o valor. Não jogue a pedra, mas não por lhe faltar pecado. Mas por ter compaixão com quem levaria a pedra na cara.
Compaixão, que segundo o Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser (que teve versão cinematográfica, em que milagrosamente o filme é melhor que o livro) tem duas raizes: 1 - significando "se condoer" e 2, a mais fantástica, que compaixão (com + paixão) quer dizer "sentir com" ou partilhar sentimentos.
Eu que ia escrever sobre sonhos, acabei desviando no meio do caminho, ouvindo esse cd do Caetano, do tempo dele na Inglaterra. Tá entre as melhores coisas que já ouvi, esse álbum e o Transa. Virei fã dessa english fase. Um cara que consegue escrever em inglês, juntando com português e carregando nos sons brasileiros não pode ser menos que genial.
I wish to know things are getting better...better...beta...betânia...
She has given her soul to the devil and bought a flat by the sea.
(...)
You don't know me... bet you never get to know me... you don't now me at all... feel so lonely... the world is spinning round slowly... there's nothing you can show me from behind the wall... show me from behind the wall... why don't you show me from behind the wall?? Nasci lá na bahia de mucama com feitor... o meu pai dormia em cama... minha mãe no pisador...
yes, the worl is spinning round slowly. just about to stop. or maybe i'm getting used to it... i exist in the center... the eye of the whirllwind... so, probably, everything will continue it's way, spinning and spinning... until I cease to be. Ou não e eu saio do centro. O mundo vai pro centro e eu só orbito.
hold in your hand
if you feel the weight
you'll understand
ou
Se você segurar uma pedra
segure-a na sua mão
se você sentir o peso
você vai entender.
Esse Caetano Veloso, meio sem querer, disse uma das coisas mais poéticas que já ouvi. Se você sente o peso da pedra não irá jogá-la em ninguém. Dai a idéia de pecado, essa invenção ridícula, perde completamente o valor. Não jogue a pedra, mas não por lhe faltar pecado. Mas por ter compaixão com quem levaria a pedra na cara.
Compaixão, que segundo o Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser (que teve versão cinematográfica, em que milagrosamente o filme é melhor que o livro) tem duas raizes: 1 - significando "se condoer" e 2, a mais fantástica, que compaixão (com + paixão) quer dizer "sentir com" ou partilhar sentimentos.
Eu que ia escrever sobre sonhos, acabei desviando no meio do caminho, ouvindo esse cd do Caetano, do tempo dele na Inglaterra. Tá entre as melhores coisas que já ouvi, esse álbum e o Transa. Virei fã dessa english fase. Um cara que consegue escrever em inglês, juntando com português e carregando nos sons brasileiros não pode ser menos que genial.
I wish to know things are getting better...better...beta...betânia...
She has given her soul to the devil and bought a flat by the sea.
(...)
You don't know me... bet you never get to know me... you don't now me at all... feel so lonely... the world is spinning round slowly... there's nothing you can show me from behind the wall... show me from behind the wall... why don't you show me from behind the wall?? Nasci lá na bahia de mucama com feitor... o meu pai dormia em cama... minha mãe no pisador...
yes, the worl is spinning round slowly. just about to stop. or maybe i'm getting used to it... i exist in the center... the eye of the whirllwind... so, probably, everything will continue it's way, spinning and spinning... until I cease to be. Ou não e eu saio do centro. O mundo vai pro centro e eu só orbito.
Wednesday, June 14, 2006
Sonhos
O sonho tem uma importância enorme para todas as sociedades, arcaicas ou modernas. Para os aborígenes, houve um tempo antes do tempo, o Dreamtime, ou Tempo do Sonho, quando os espíritos ancestrais caminhavam sobre a terra. Brahma, o deus criador Hindú, cria o mundo usando como matéria os sonhos de Vishnu, o deus que dorme. Para a psicanálise, os sonhos são construtos do inconsciente, formas de realizar desejos não realizados conscientemente, repetições de ações feitas durante a vigília ou mensagens codificadas.
É bem comum que, quando se sonha, não se compreenda o sonho. Substituições, metáforas e misturas de elementos são comuns na tecitura onírica. Os sonhos complexos, de primeira, parecem desconexos e sem sentido. Acontece de só se compreender uma ou outra peça e se compor uma idéia geral a partir dos fragmentos muito tempo depois. Essa forma de compreensão me surge como insight, uma consciência repentina aparentemente ilógica.
Num primeiro sonho, há meses, vi um cavalo marrom, de semblante tranquilo, preso numa gaiola de zoológico. Quando o vejo, choro e o sentimento é de reencontrar algo que tinha se perdido. Dois meninos, meio demônios, riem de mim.
No segundo sonho, aparece um menino, mudo, com dificuldade de andar, que sou eu. A mãe, como uma secretaria de executivo, fala por ele. Conversa com um fisioterapeuta, que é um ator de cinema que eu tinha visto no IR dias antes. "Ele não aceita andar de cadeira de rodas" diz ela. "Mas vai ter que usá-la, não tem jeito" diz ele.
Então vejo um cavalo branco, num campo de futebol, correndo para o gol, prestes a atingir uma das traves. Outras pessoas, banqueiros e apostadores, observam. O cavalo está livre e transmutado, mas vai bater a cabeça e se machucar inutilmente. O cavalo, símbolo de força, virilidade e direcionamento, está sem cavaleiro. Está abandonado.
De que serviria o cavalo contra o Dragão, sem São Jorge? Alguém deve carregar a lança e conduzir o cavalo, símbolo da força instintiva purificada, contra o Dragão, na visão católica um símbolo do ego devorador e da sombra que não foi integrada à consciência. O cavaleiro é, assim, a consciência que direciona a força primal. No tarô, O Carro, carta do arquétipo do herói
Mas o cavaleiro não aceita, no meu sonho, a incumbência. O menino se julga inadequado para conduzir tal força e se recusa a aceitar a realidade: ele não poderá ser um cavaleiro como os outros. Como a realidade é negada, o menino nunca vai crescer e se tornar homem. Se sagrar cavaleiro, direcionar a própria vida, que está parada.
Uma mensagem do inconsciente que me parece assim, clara. Aceitar a realidade, sentir a dor de um rito de passagem, transmutar-se e assumir de vez o cavalo.
É bem comum que, quando se sonha, não se compreenda o sonho. Substituições, metáforas e misturas de elementos são comuns na tecitura onírica. Os sonhos complexos, de primeira, parecem desconexos e sem sentido. Acontece de só se compreender uma ou outra peça e se compor uma idéia geral a partir dos fragmentos muito tempo depois. Essa forma de compreensão me surge como insight, uma consciência repentina aparentemente ilógica.
Num primeiro sonho, há meses, vi um cavalo marrom, de semblante tranquilo, preso numa gaiola de zoológico. Quando o vejo, choro e o sentimento é de reencontrar algo que tinha se perdido. Dois meninos, meio demônios, riem de mim.
No segundo sonho, aparece um menino, mudo, com dificuldade de andar, que sou eu. A mãe, como uma secretaria de executivo, fala por ele. Conversa com um fisioterapeuta, que é um ator de cinema que eu tinha visto no IR dias antes. "Ele não aceita andar de cadeira de rodas" diz ela. "Mas vai ter que usá-la, não tem jeito" diz ele.
Então vejo um cavalo branco, num campo de futebol, correndo para o gol, prestes a atingir uma das traves. Outras pessoas, banqueiros e apostadores, observam. O cavalo está livre e transmutado, mas vai bater a cabeça e se machucar inutilmente. O cavalo, símbolo de força, virilidade e direcionamento, está sem cavaleiro. Está abandonado.
De que serviria o cavalo contra o Dragão, sem São Jorge? Alguém deve carregar a lança e conduzir o cavalo, símbolo da força instintiva purificada, contra o Dragão, na visão católica um símbolo do ego devorador e da sombra que não foi integrada à consciência. O cavaleiro é, assim, a consciência que direciona a força primal. No tarô, O Carro, carta do arquétipo do herói
Mas o cavaleiro não aceita, no meu sonho, a incumbência. O menino se julga inadequado para conduzir tal força e se recusa a aceitar a realidade: ele não poderá ser um cavaleiro como os outros. Como a realidade é negada, o menino nunca vai crescer e se tornar homem. Se sagrar cavaleiro, direcionar a própria vida, que está parada.
Uma mensagem do inconsciente que me parece assim, clara. Aceitar a realidade, sentir a dor de um rito de passagem, transmutar-se e assumir de vez o cavalo.
Monday, June 12, 2006
Caçador de Mim
Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu caçador de mim
Preso a canções, entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu caçador de mim
Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir as armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu caçador de mim
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu caçador de mim
Preso a canções, entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu caçador de mim
Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir as armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu caçador de mim
Sunday, June 11, 2006
O Gigante
Ele era grande. Lembro direitinho. Eu achava que ele tinha uns bons metros de altura. Era quase uma árvore. Diziam que ele era bravo. Engraçado que, durante a minha vida toda, eu nunca tinha visto isso. Pra mim ele era uma árvore firme e simpática, algo como o Barbárvore. Quando eu era pequeno e o visitava lá em Oliveira. O que ficou na minha memória é o "quando eu era pequeno".
Quando eu era pequeno, ele gostava de ler revistinhas e uns livrinhos de faroeste, não lembro quais, mas garanto que havia um Tex entre elas. Eu achava que ele era o homem mais sábio de todos, manifestação arquetípica da experiência.
Quando eu era pequeno, ele me dizia que as sementes de girassol que ficava nas telas atrás da cozinha era comida pra passarinho. Que o girassol é que comandava o movimento do sol, numa mitologia bonita. Que o tomate pequeno era venenoso. Eu lembro também de Jornal Nacional, que ele assistia. Ou mesmo jornal impresso, que até os últimos dias ele costumava ler. Já quando eu não era tão pequeno, lembro dele cortando vara de marmelo pra eu e meu primo brincar de cai n'água, no carnaval.
Outra imagem, a mais triste que eu já vi. Meu avô, sentado numa cadeira, ao lado do caixão da minha avó. Muito triste, mas de uma beleza, de uma força incomensurável. O ser humano é belo nos grandes momentos, nesses momentos em que todo mundo é igual. Perante a morte treme mesmo quem acredita. Mas, depois do fim, havia sim um amor, continuava uma ligação forte entre os dois.
Hoje, meu avô morreu. Mesmo sabendo que ele não era tão gigante, afinal de contas, prefiro lembrar com olhos de vinte anos atrás. Os mortos, os nossos mortos, vivem é na memória.
Quando eu era pequeno, ele gostava de ler revistinhas e uns livrinhos de faroeste, não lembro quais, mas garanto que havia um Tex entre elas. Eu achava que ele era o homem mais sábio de todos, manifestação arquetípica da experiência.
Quando eu era pequeno, ele me dizia que as sementes de girassol que ficava nas telas atrás da cozinha era comida pra passarinho. Que o girassol é que comandava o movimento do sol, numa mitologia bonita. Que o tomate pequeno era venenoso. Eu lembro também de Jornal Nacional, que ele assistia. Ou mesmo jornal impresso, que até os últimos dias ele costumava ler. Já quando eu não era tão pequeno, lembro dele cortando vara de marmelo pra eu e meu primo brincar de cai n'água, no carnaval.
Outra imagem, a mais triste que eu já vi. Meu avô, sentado numa cadeira, ao lado do caixão da minha avó. Muito triste, mas de uma beleza, de uma força incomensurável. O ser humano é belo nos grandes momentos, nesses momentos em que todo mundo é igual. Perante a morte treme mesmo quem acredita. Mas, depois do fim, havia sim um amor, continuava uma ligação forte entre os dois.
Hoje, meu avô morreu. Mesmo sabendo que ele não era tão gigante, afinal de contas, prefiro lembrar com olhos de vinte anos atrás. Os mortos, os nossos mortos, vivem é na memória.
Friday, June 09, 2006
Canto de Ossanha
"O homem que diz dou não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz vou não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz sou não é
Porque quem é mesmo é não sou
O homem que diz estou não está
Porque ninguém está quando quer"
Sabia das coisas, esse Vinícius...
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz vou não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz sou não é
Porque quem é mesmo é não sou
O homem que diz estou não está
Porque ninguém está quando quer"
Sabia das coisas, esse Vinícius...
Tuesday, June 06, 2006
Monday, May 29, 2006
Antônio Machado
"O que é essa gota
no vento
que grita ao mar:
sou o mar?"
Mínimo, diante da totalidade. Já não luto contra a existência, não sou mais estóico e sorridente. Eu digo bobagens. Eu erro e me defendo. Tenho dentes e gritos. Tenho sangue e vivo e me corto e corto de volta. Eu fico triste, revoltado e muito puto com injustiças. O mundo parecia tão justo, tão à parte de tudo. Eu acreditava no que dizia o homem de vitrúvio, o idiota proporcionalmente perfeito. Prefiro o corpo nu da Estrela. Tão mais bela. Pinta o desejo, ah, se ela fosse minha! Eu divago, pensando como seria poder parar sem precisar procurar caminho. Pensando como a vida poderia ser agradável em simplicidade. Apenas um desejo fruto da minha "estrangeirice" nesse mundo feito de tempo e pedra.
no vento
que grita ao mar:
sou o mar?"
Mínimo, diante da totalidade. Já não luto contra a existência, não sou mais estóico e sorridente. Eu digo bobagens. Eu erro e me defendo. Tenho dentes e gritos. Tenho sangue e vivo e me corto e corto de volta. Eu fico triste, revoltado e muito puto com injustiças. O mundo parecia tão justo, tão à parte de tudo. Eu acreditava no que dizia o homem de vitrúvio, o idiota proporcionalmente perfeito. Prefiro o corpo nu da Estrela. Tão mais bela. Pinta o desejo, ah, se ela fosse minha! Eu divago, pensando como seria poder parar sem precisar procurar caminho. Pensando como a vida poderia ser agradável em simplicidade. Apenas um desejo fruto da minha "estrangeirice" nesse mundo feito de tempo e pedra.
Wednesday, May 24, 2006
Noiva da cidade
"Ela sabe muito bem que quando adormece
Está roubando
O sono de outra gente
Ai, quanta maldade a dessa moça
E, que aqui ninguém nos ouça
Ela sabe enfeitiçar"
Está roubando
O sono de outra gente
Ai, quanta maldade a dessa moça
E, que aqui ninguém nos ouça
Ela sabe enfeitiçar"
Saturday, May 06, 2006
Heis a questão.
Weep no More For Treasures You've Been Searching For in Vain,
'cos the Truth Is Gently Falling With the Rain.
Não chore pelos tesouros que você tem buscado em vão,
pois a verdade está gentilmente caindo com a chuva.
As coisas são o que são.
Como lidar com isso?
'cos the Truth Is Gently Falling With the Rain.
Não chore pelos tesouros que você tem buscado em vão,
pois a verdade está gentilmente caindo com a chuva.
As coisas são o que são.
Como lidar com isso?
Dirty Mac
If i ain't dead already, don't know the reason why. Fruto de um raro encontro musical entre John Lennon e Eric Clapton, uma banda que ficou com o nome do título.
Tudo começa num dia azul de sol. Paz aparente. Termina cinza e cansado, aguardando o mergulho numa noite assustadora e fria.
Fiz um jogo de tarô. Minha persona, minha máscara, meu pão, cachaça, o meu social de todo dia, era a Estrela. Olha-se a foto de um lago suiço e vê-se harmonia, equilíbrio e até mesmo alegria. Superfície. Meu valor maior, demonstrar minha capacidade de dirigir minha vida, supervalorização da independência, era o Carro, quem dizia. Tudo para esconder um Diabo imaginário, por fim. Jogo de espelhos.
O casal perfeito seria, hoje, a Sacerdotisa e o Pendurado. Uma moça pudica, papai-mamãe com luz apagada e lençol, com o já conhecido e arquetípico sujeito que não caga nem sai da moita. Se esse fosse o último casal da terra, a humanidade estaria exterminada. Talvez isso nem fosse de todo ruim, pois o mundo estaria por fim livre do tempo.
Eta vida besta! Cansado, num sábado. Preciso me despir de mim, tirar, além da roupa, a pele, a carne, os músculos e os ossos... que sobrem as 21 gramas da alma, se forem realmente alma e não apenas ironia. Parece que a vida é um grande vazio, solitário, entrecortado, vez ou outra, de palavras.
Parafraseando o Manuel Bandeira: estou cansado de lirismo comedido, lirismo funcionário público com livro de ponto e tabela de regra de cossenos. Cansado de lirismo raquítico, sifilítico, que capitula ao que quer que seja pra fora de si mesmo. Vivam os barbarismos universais! Os loucos bem loucos, as fêmeas bem fêmeas.
Ainda preciso saber o que eu quero da vida.
If i ain't dead already, don't know the reason why.
Friday, April 28, 2006
Quanto a escrever...
Como diz a Clarice Linspector, em a Hora da Estrela:
"quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo."
A verdade da experiência de viver.
E eu digo: só sei o que eu vivenciei.
"quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo."
A verdade da experiência de viver.
E eu digo: só sei o que eu vivenciei.
You Can Never Go Home
I Don't Know What I'm Searching For
I Never Have Opened the Door
Tomorrow May Find Me At Alast,
Turning My Back On the Past,
But, Time Will Tell, of Stars That Fell,
A Million Years Ago.
Memories Can Never Take You Back, Home, Sweet, Home.
You Can Never Go Home Any More.
All My Life I Never Really Knew Me Till Today.
Now I Know Why, I'm Just Another Step Along the Way.
I Lie Awake For Hours, I'm Just Waiting For the Sun.
When the Journey We Are Making Has Begun,
Don't Deny the Feeling That Is Stealing Through Your Heart.
Every Happy Ending Needs to Have a Start.
All My Life I Never Really Knew Me Till Today.
Now I Know Why I Am Just Another Step Along the Way.
Weep no More For Treasures You've Been Searching For in Vain,
'cos the Truth Is Gently Falling With the Rain,
High Above the Forest Lie the Pastures of the Sun,
Where the Two That Learned the Secret Now Are One.
The Moody Blues
A verdade está gentilmente caindo com a chuva.
I Never Have Opened the Door
Tomorrow May Find Me At Alast,
Turning My Back On the Past,
But, Time Will Tell, of Stars That Fell,
A Million Years Ago.
Memories Can Never Take You Back, Home, Sweet, Home.
You Can Never Go Home Any More.
All My Life I Never Really Knew Me Till Today.
Now I Know Why, I'm Just Another Step Along the Way.
I Lie Awake For Hours, I'm Just Waiting For the Sun.
When the Journey We Are Making Has Begun,
Don't Deny the Feeling That Is Stealing Through Your Heart.
Every Happy Ending Needs to Have a Start.
All My Life I Never Really Knew Me Till Today.
Now I Know Why I Am Just Another Step Along the Way.
Weep no More For Treasures You've Been Searching For in Vain,
'cos the Truth Is Gently Falling With the Rain,
High Above the Forest Lie the Pastures of the Sun,
Where the Two That Learned the Secret Now Are One.
The Moody Blues
A verdade está gentilmente caindo com a chuva.
Egípcia
A Rosa
Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho, cravado em minha garganta, garganta
A santa, às vezes troca meu nome, e some
E some nas altas da madrugada
Coitada, trabalha de plantonista
Artista, é doida pela Portela, oi ela
Oi ela, vestida de verde e rosa, a rosa
A Rosa, garante que é sempre minha
Quietinha, saiu prá comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do norte, que sorte
Que sorte, voltou toda sorridente
Demente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara
Odara, gravou meu nome na blusa, me acusa
Me acusa, revista os bolsos da calça
A falsa, limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa
Beleza, na hora do bom se queixa, me deixa
A gueixa, que coisa mais amorosa, a rosa
A Rosa, o meu projeto de vida
Bandida, cadê minha estrela-guia
Vadia, me esquece na noite escura, mas jura
Que um dia volta pra casa.
Chico Buarque, falar o que mais?
Destaquei o verso mais matador. A imagem é perfeita, egípcia: todos aqueles desenhos de perfil nos hieróglifos. Pior é que ainda gosto de uma garota que tem algo de egípcia. Só que eu nunca tive pedra de roseta capaz de decifrá-la. Aliás, até outro dia eu não sabia o que era pedra de roseta hahahaha. Na verdade nem precisa, não há nada o que decifrar. Ou é, ou não é. É estranho entender outra pessoa pela semelhança que ela parece ter com você.
Como não foi nem será basta o deixar passar. Natural. Fica o Pessoa em sua mais interessante faceta: um dia amei mas não fui amado de volta. Pelo único motivo que existe: não tinha que ser.
Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho, cravado em minha garganta, garganta
A santa, às vezes troca meu nome, e some
E some nas altas da madrugada
Coitada, trabalha de plantonista
Artista, é doida pela Portela, oi ela
Oi ela, vestida de verde e rosa, a rosa
A Rosa, garante que é sempre minha
Quietinha, saiu prá comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do norte, que sorte
Que sorte, voltou toda sorridente
Demente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara
Odara, gravou meu nome na blusa, me acusa
Me acusa, revista os bolsos da calça
A falsa, limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa
Beleza, na hora do bom se queixa, me deixa
A gueixa, que coisa mais amorosa, a rosa
A Rosa, o meu projeto de vida
Bandida, cadê minha estrela-guia
Vadia, me esquece na noite escura, mas jura
Que um dia volta pra casa.
Chico Buarque, falar o que mais?
Destaquei o verso mais matador. A imagem é perfeita, egípcia: todos aqueles desenhos de perfil nos hieróglifos. Pior é que ainda gosto de uma garota que tem algo de egípcia. Só que eu nunca tive pedra de roseta capaz de decifrá-la. Aliás, até outro dia eu não sabia o que era pedra de roseta hahahaha. Na verdade nem precisa, não há nada o que decifrar. Ou é, ou não é. É estranho entender outra pessoa pela semelhança que ela parece ter com você.
Como não foi nem será basta o deixar passar. Natural. Fica o Pessoa em sua mais interessante faceta: um dia amei mas não fui amado de volta. Pelo único motivo que existe: não tinha que ser.
Thursday, April 27, 2006
Burnout
ou esgotamento existencial.
Cansei de mim, como quem se cansa de respirar num quarto sem janelas nem portas, com quatro paredes brancas e abafadas. O branco permite que tudo, como se fosse tela, seja imaginado e projetado. Mas e o real? Perde-se, sempre lá fora. O lá fora termina por ser imaginado apenas, faltando-lhe substância e vivência. As lutas acontecem no ringue e não nos vestiários ou na confecção das luvas do boxeador.
Cansei de mim pois busco o outro. Jung diz que existem dois tipos básicos de pessoas, aquelas introvertidas e as extrovertidas. Esses dois tipos básicos se conjugam com quatro características - pensamento, sentimento, intuição e sensação. O desenvolvimento rumo ao Self, a individuação, tende a equilibrar essas funções, apesar de, na raiz, sempre termos um lado predominante.
O extrovertido é aquele que corre para o objeto de seu desejo, sem ter uma relação de conhecimento ampla de sua paisagem interior. O introvertido olha para o objeto e o reveste de uma capa, algo que ele projeta sobre esse objeto.
Pelo desconhecimento, o Extrovertido que mergulha em si mesmo encontra terreno virgem, não experimentado, recebendo esse "interior" de forma positiva e com certa inocência. Com o Introvertido, quando entra no mundo exterior, acontece algo semelhante: o mundo de fora é belo, novo e sem vícios.
Talvez por isso eu nunca tenha deixado de ter fé nas pessoas, por mais ameaçador e difícil que eu considere esse tal "outro". Talvez por isso eu tenha resolvido criar uma janela e uma porta, com sangue, nesse quarto fechado. Eu nunca ouço ninguém, por fim. Se ouço é por preguiça, passividade e conveniência. Eu não costumo olhar para fora, como se o mundo fosse quase minha criação e tivesse que ter as minhas regras.
O que acontece quando se descobre que você não é bonzinho, ou justo? Eu rio. Rio por desvelar um mistério, rio de ter encarado a minha sombra, rio por ver além da névoa. Rio por confirmar o que eu sempre achei ridículo no cristianismo: que a dor ensina, que olhar para o outro é a salvação para o si mesmo e que esse outro, para além do ego, é a totalidade do ser. Isso é o que chamam Deus, sem saber: a vivência do Ser, a experiência mística, individual e intransferível, que a ignorância transforma em dogma religioso. A ignorância e a covardia, o niilismo que nega a vida, como diz Nietszche.
O caminho para o Self é de transformação, de alquimia, de desvelamento, de inacabamento, de dissolução, de coragem perante a destruição. Da formação de um terceiro elemento, inesperado.
O que se aprende quando se percebe que só uma pessoa não basta? Que sim, uma pessoa consegue bastar a si mesma, ser autônoma completamente, pois por fim ninguém precisa de ninguém. Mas que vida pobre essa, pautada por mera necessidade, por mero "precisar de alguém". Tanto quem precisa quanto quem não precisa tem uma vida pobre.
Ninguém precisa de ninguém. Portanto muito, muito mais que precisar, melhor é querer caminhar com o outro, ter isso por desejo e afinidade.
Cansei de mim, como quem se cansa de respirar num quarto sem janelas nem portas, com quatro paredes brancas e abafadas. O branco permite que tudo, como se fosse tela, seja imaginado e projetado. Mas e o real? Perde-se, sempre lá fora. O lá fora termina por ser imaginado apenas, faltando-lhe substância e vivência. As lutas acontecem no ringue e não nos vestiários ou na confecção das luvas do boxeador.
Cansei de mim pois busco o outro. Jung diz que existem dois tipos básicos de pessoas, aquelas introvertidas e as extrovertidas. Esses dois tipos básicos se conjugam com quatro características - pensamento, sentimento, intuição e sensação. O desenvolvimento rumo ao Self, a individuação, tende a equilibrar essas funções, apesar de, na raiz, sempre termos um lado predominante.
O extrovertido é aquele que corre para o objeto de seu desejo, sem ter uma relação de conhecimento ampla de sua paisagem interior. O introvertido olha para o objeto e o reveste de uma capa, algo que ele projeta sobre esse objeto.
Pelo desconhecimento, o Extrovertido que mergulha em si mesmo encontra terreno virgem, não experimentado, recebendo esse "interior" de forma positiva e com certa inocência. Com o Introvertido, quando entra no mundo exterior, acontece algo semelhante: o mundo de fora é belo, novo e sem vícios.
Talvez por isso eu nunca tenha deixado de ter fé nas pessoas, por mais ameaçador e difícil que eu considere esse tal "outro". Talvez por isso eu tenha resolvido criar uma janela e uma porta, com sangue, nesse quarto fechado. Eu nunca ouço ninguém, por fim. Se ouço é por preguiça, passividade e conveniência. Eu não costumo olhar para fora, como se o mundo fosse quase minha criação e tivesse que ter as minhas regras.
O que acontece quando se descobre que você não é bonzinho, ou justo? Eu rio. Rio por desvelar um mistério, rio de ter encarado a minha sombra, rio por ver além da névoa. Rio por confirmar o que eu sempre achei ridículo no cristianismo: que a dor ensina, que olhar para o outro é a salvação para o si mesmo e que esse outro, para além do ego, é a totalidade do ser. Isso é o que chamam Deus, sem saber: a vivência do Ser, a experiência mística, individual e intransferível, que a ignorância transforma em dogma religioso. A ignorância e a covardia, o niilismo que nega a vida, como diz Nietszche.
O caminho para o Self é de transformação, de alquimia, de desvelamento, de inacabamento, de dissolução, de coragem perante a destruição. Da formação de um terceiro elemento, inesperado.
O que se aprende quando se percebe que só uma pessoa não basta? Que sim, uma pessoa consegue bastar a si mesma, ser autônoma completamente, pois por fim ninguém precisa de ninguém. Mas que vida pobre essa, pautada por mera necessidade, por mero "precisar de alguém". Tanto quem precisa quanto quem não precisa tem uma vida pobre.
Ninguém precisa de ninguém. Portanto muito, muito mais que precisar, melhor é querer caminhar com o outro, ter isso por desejo e afinidade.
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