Napoleão, Caetano Veloso, Mick Jagger, Mário Andrade, Ney Matogrosso, Bruna Lombardi, C G Jung. Líderes, artistas e poetas nascidos sob a regência de Apolo, o Sol. Leoninos, altivos e abertos para a vida, todos tocados para a arte. No tarot, é a carta XIX, a plena consciência e realização dos objetivos... depois que se atravessa o rio, o inconsciente, no arcano da Lua, chega-se à outra margem, iluminada.
E o outro lado do rio é, como diz Guimarães Rosa, "bem diferente do que se esperava". O outro lado do rio é um encontro, com a beleza que somente as coisas inesperadas possuem, que acontece apesar de haver tanto desencontro nessa vida. Eu encontrei, depois de atravessar o rio, na outra margem, alguém que me fez parar. Um encontro de olhares que é quase um reconhecimento, vindo com toda a força do que existe naturalmente.
Agora, pouco me importam os leoninos que citei acima. O que eu vejo, à minha frente, são dois olhos castanhos, entreabertos, convites para as pausas que vivem no passar de páginas dos volumes das Mil e Uma Noites...
Pausas que não pedem nomes, apenas a livre vontade de se fazer presente no momento. Momento que passa rápido, deixando um rastro de perfume e saudade em seu percalço. Saudade de quem, por algum tempo, aprendeu o que é partilhar o ar, que vem perfumado.
Blog pessoal de André Camargos, publicitário por profissão e escritor por hobby. Textos diversos como poemas. crônicas, críticas de livros e sugestões de leitura.
Friday, September 29, 2006
Wednesday, September 27, 2006
Sobre cafés e canções
Hoje canto em nome dos cafés e canções do mundo. Canto pela vida, que, conforme diz Vinícius de Morais, "é a arte do encontro". Se os encontros dessa arte acontecem por acaso ou por destino, pouco importa, ambos são igualmente belos. O destino ou acaso sorriem.
Eu canto pela eternidade, que rompe o véu do mundo e se revela de súbito e delicadamente, na plena natureza das coisas. E alguém poderia perguntar: Mas que força é essa que pode romper assim, de tal forma inegável, o tempo, maior força que rege o mundo?
Minha resposta caberia em poucas palavras: Um beijo destrói o tempo.
Eu canto pela eternidade, que rompe o véu do mundo e se revela de súbito e delicadamente, na plena natureza das coisas. E alguém poderia perguntar: Mas que força é essa que pode romper assim, de tal forma inegável, o tempo, maior força que rege o mundo?
Minha resposta caberia em poucas palavras: Um beijo destrói o tempo.
Tuesday, September 19, 2006
bliss
Grandiosidade. Aquele sentido de que se faz parte de algo grandioso, de um mistério sem fim. O véu do mistério, que sempre haverá. Garantia da criação. Enquanto há o véu, impenetrável, existe o mistério. Mas o véu tem frestas e espaços translucidos. O que se vê, além dela, quando um facho de luz atravessa o mundo e a poeira, suspensa, permite que o facho seja visto? Ai vive a criação. Ai, nesse espaço, vive o poeta. Ah! Sempre existe um espaço entre a tal realidade e a vida humana! O desvelamento é parcial... mas quando algo se desvela, quando a dualidade das coisas cede, por um momento, algo inexplicável e maravilhoso acontece. Me sinto prestes a iniciar uma religião, tal qual o místico, que, maravilhado, tenta transmitir via teologia, via palavra, para partilhar sua benção, ao resto do mundo. Eu grito!
Me pergunto, com profundidade, que experiências de vida me fazem realmente me sentir vivo? Vivo, profundamente. Em contato com algum nível de realidade de coisas. O caminho, meu caminho. Há pistas. Nas coisas simples ou complicadas, quando, por um momento, o sujeito se sente inteiro. Um casamento em seu mais alto sentido: comunhão, compromisso com o centro da roda e não com as casualidades. Amor fatti. Amor pelo destino. Não só.
Estou como o bêbado que faz algo que o chato regado a coca-cola nunca faria. Mas tal qual bêbado, protegido pelos deuses, seja lá o que eles forem, ou qual nome assumam, ou tal qual o estudante de canto, que tenta lembrar onde, em sua garganta, a nota certa ressoa, a lembrança falha. Pra que pôr palavras? Melhor seria uma metáfora.
A grandiosidade sentida é o reconhecimento de algo como um deus interior. Tal como os indianos, hoje eu poderia saldar cada pessoa com um cumprimento, de mãos unidas como reza, que reconhece no outro uma divindade. Divindades em diálogo, ligados pelo mesmo princípio, unos, se olham REALMENTE nos olhos.
O Camelo, o Leão e a Criança. Sociedade formadora. O Leão contra o Dragão do Você Deve. A Criança, o menino-jesus do Alberto Caeiro, que limpa o nariz na barra do paletó armani.
Me pergunto, com profundidade, que experiências de vida me fazem realmente me sentir vivo? Vivo, profundamente. Em contato com algum nível de realidade de coisas. O caminho, meu caminho. Há pistas. Nas coisas simples ou complicadas, quando, por um momento, o sujeito se sente inteiro. Um casamento em seu mais alto sentido: comunhão, compromisso com o centro da roda e não com as casualidades. Amor fatti. Amor pelo destino. Não só.
Estou como o bêbado que faz algo que o chato regado a coca-cola nunca faria. Mas tal qual bêbado, protegido pelos deuses, seja lá o que eles forem, ou qual nome assumam, ou tal qual o estudante de canto, que tenta lembrar onde, em sua garganta, a nota certa ressoa, a lembrança falha. Pra que pôr palavras? Melhor seria uma metáfora.
A grandiosidade sentida é o reconhecimento de algo como um deus interior. Tal como os indianos, hoje eu poderia saldar cada pessoa com um cumprimento, de mãos unidas como reza, que reconhece no outro uma divindade. Divindades em diálogo, ligados pelo mesmo princípio, unos, se olham REALMENTE nos olhos.
O Camelo, o Leão e a Criança. Sociedade formadora. O Leão contra o Dragão do Você Deve. A Criança, o menino-jesus do Alberto Caeiro, que limpa o nariz na barra do paletó armani.
Sunday, September 03, 2006
Um pouco mais
Suspensão. O momento entre o expirar e o inspirar. Minha hora é essa. Sabe-se que a vida funciona por meio da respiração e que, certamente, após a pausa, segue a vida. Mas a pausa, uma dessas coisas eternas que duram um quase nada de tempo, é fundamental. Sem a pausa, falta à música ritmo. Sem a pausa, não existe o choque com o que é belo. O que seria de uma obra de arte se não houvesse aquele momento em que o observador, tomado, suspira? A pausa é a chance para o suspiro vir à vida.
Um suspiro. Quase nada bem mais sincero e completo que as análises dos críticos ou os apertos de mão em cumprimento pela genialidade da obra. Pausa.
Momento que eu paro e penso: onde foi parar a minha vida? Um olho enxerga o deserto mas o outro vê a árvore e o lago. Quando eu vivo uma árvore vejo que deus, caso exista, é um impressionista. O olho não comporta a complexibilidade do movimento de uma árvore frondosa balançada pelo vento.
Porém, não vim aqui falar de árvores. Vim com o propósito literal e descarado de refletir. Podia ser um arquivo de word, mas me sinto menos sozinho e mais sincero ao saber que alguém pode olhar de fora.
Recebi o dever de pensar nos meus sonhos. A minha pausa foi entre o "ah, tudo bem, vou pensar nos meus sonhos" e o "nossa, eu nem sei o que essa pergunta significa".
Virei uma pequena máquina de resolver problemas materiais. Uma máquina de viver de acordo com o imediatamente. Uma máquina de acordar de manhã, tomar café, trabalhar, almoçar, trabalhar, ir pra casa, pagar contas e dormir. Material e puro. Real e seco. Quando eu busco a realidade das coisas corro o grave risco de encontrar uma hiper-realidade. Uma realidade mais dura do que ela realmente é. Meu desafio, conseguir tornar as coisas mais fáceis.
Um dia cheguei e disse: cansei. Um cansaço de desânimo e acordar de saco cheio. Tudo tão pobre, tudo tão árido. A vida dura. O mundo, é uma merda. Morto o mistério, triste o destino. Uma grande perda para piorar tudo: minha grande amiga, minha mãe, morta. Coisa absurda e sem palavras. Pronto, achei que tinha superado. Nunca. A vida. A dureza da morte.
Entendi porque surgem as religiões, da dor de algo incomensurável, de algo incompatível com o amor que se tem por alguém. A morte é dura. Está em mim tentar ser mais duro que ela. Eu me protejo com o pensamento. "As coisas são o que são." No fundo da aceitação eu queria dizer "não". Eu não quero isso. Mas a barreira do meu querer e sua impossibilidade de realização cedem à realidade. Eu, chorar? Ah, nunca foi algo tão comum quanto agora.
Estou entrando em contato com o que Jung chamaria de minha função inferior: o sentimento. Campo sempre obscuro e complicado mas rico, devido ao seu aspecto sempre nublado. Meu pensamento, minha casa, e eu querendo ficar na chuva. E a função sentimento não entrará nunca na casa. O pensamento é que fará a jornada. Vai se molhar.
Hoje, com toda literalidade, posso dizer: a aceitação da dança da vida está marcada até o fim da minha existência material em mim. Curioso, a vida se faz em som de tambor, ritmica, como um relógio compassado e se desfaz em fogo, se desfaz em espírito.
Falta à minha vida trabalhar não no muro, que já existe, mas nas cores e desenhos do muro. Cabe à mim aprender e não ver só a mesa, mas ver na mesa a experiência e os jantares felizes que se fizeram tendo-a como suporte. Cade construir e transformar o mundo, de um todo material de coisas, um todo rico e dotado de dimensão simbólica. De olhar para o mundo para vivenciá-lo.
Nunca vou negar a dor. Isso seria niilismo. Mas preciso colocá-la em perspectiva e construir para ela contrastes. Ou a vida fica besta. Paradoxalmente, preciso também viver com menos idealismo. Ainda não desci o suficiente para tocar como eu desejo a vida.
Tempo atrás eu acharia essa pergunta idiota demais. Sonhos são coisas de livro americano de auto-ajuda, pautadas pela crença estúpida e inútil de que se deve ser feliz 34 horas por dia. Mas não. Sonho é algo que se tem em vista, um propósito ou algo que te desperta para a vida. Não sei se é o mesmo que Beleza. Talvez meu sonho seja o de cultivar coisas belas sem para isso abrir mão da verdade. Coisa abstrata. Mas quando eu vejo o Saramago, com todo seu ateísmo empedernido, falar que todo dia ele coloca água em suas plantas pela mera possibilidade de ver esse milagre de vida acontecendo, eu não vejo nada abstrato. Eu sinto algo superior, algo menos miserável que uma vida de deserto sem água.
Eu sonho em vivenciar coisas e transformá-las, de preferência, em poesia. Três ou quatro linhas, que em si, dizem tudo. Pequenas mandalas que se fecham, coisas pequenas que, em sua simplicidade, falem um pouco da totalidade. Estou, por fim, querendo me alinhar com o mundo. Mas do meu jeito. Quero trazer para o mundo alguma descoberta nova, um pouco que seja de contribuição para o Zeigst, o espírito do mundo, ser simbólico.
O mundo prático me chama. Mas continuarei.
Um suspiro. Quase nada bem mais sincero e completo que as análises dos críticos ou os apertos de mão em cumprimento pela genialidade da obra. Pausa.
Momento que eu paro e penso: onde foi parar a minha vida? Um olho enxerga o deserto mas o outro vê a árvore e o lago. Quando eu vivo uma árvore vejo que deus, caso exista, é um impressionista. O olho não comporta a complexibilidade do movimento de uma árvore frondosa balançada pelo vento.
Porém, não vim aqui falar de árvores. Vim com o propósito literal e descarado de refletir. Podia ser um arquivo de word, mas me sinto menos sozinho e mais sincero ao saber que alguém pode olhar de fora.
Recebi o dever de pensar nos meus sonhos. A minha pausa foi entre o "ah, tudo bem, vou pensar nos meus sonhos" e o "nossa, eu nem sei o que essa pergunta significa".
Virei uma pequena máquina de resolver problemas materiais. Uma máquina de viver de acordo com o imediatamente. Uma máquina de acordar de manhã, tomar café, trabalhar, almoçar, trabalhar, ir pra casa, pagar contas e dormir. Material e puro. Real e seco. Quando eu busco a realidade das coisas corro o grave risco de encontrar uma hiper-realidade. Uma realidade mais dura do que ela realmente é. Meu desafio, conseguir tornar as coisas mais fáceis.
Um dia cheguei e disse: cansei. Um cansaço de desânimo e acordar de saco cheio. Tudo tão pobre, tudo tão árido. A vida dura. O mundo, é uma merda. Morto o mistério, triste o destino. Uma grande perda para piorar tudo: minha grande amiga, minha mãe, morta. Coisa absurda e sem palavras. Pronto, achei que tinha superado. Nunca. A vida. A dureza da morte.
Entendi porque surgem as religiões, da dor de algo incomensurável, de algo incompatível com o amor que se tem por alguém. A morte é dura. Está em mim tentar ser mais duro que ela. Eu me protejo com o pensamento. "As coisas são o que são." No fundo da aceitação eu queria dizer "não". Eu não quero isso. Mas a barreira do meu querer e sua impossibilidade de realização cedem à realidade. Eu, chorar? Ah, nunca foi algo tão comum quanto agora.
Estou entrando em contato com o que Jung chamaria de minha função inferior: o sentimento. Campo sempre obscuro e complicado mas rico, devido ao seu aspecto sempre nublado. Meu pensamento, minha casa, e eu querendo ficar na chuva. E a função sentimento não entrará nunca na casa. O pensamento é que fará a jornada. Vai se molhar.
Hoje, com toda literalidade, posso dizer: a aceitação da dança da vida está marcada até o fim da minha existência material em mim. Curioso, a vida se faz em som de tambor, ritmica, como um relógio compassado e se desfaz em fogo, se desfaz em espírito.
Falta à minha vida trabalhar não no muro, que já existe, mas nas cores e desenhos do muro. Cabe à mim aprender e não ver só a mesa, mas ver na mesa a experiência e os jantares felizes que se fizeram tendo-a como suporte. Cade construir e transformar o mundo, de um todo material de coisas, um todo rico e dotado de dimensão simbólica. De olhar para o mundo para vivenciá-lo.
Nunca vou negar a dor. Isso seria niilismo. Mas preciso colocá-la em perspectiva e construir para ela contrastes. Ou a vida fica besta. Paradoxalmente, preciso também viver com menos idealismo. Ainda não desci o suficiente para tocar como eu desejo a vida.
Tempo atrás eu acharia essa pergunta idiota demais. Sonhos são coisas de livro americano de auto-ajuda, pautadas pela crença estúpida e inútil de que se deve ser feliz 34 horas por dia. Mas não. Sonho é algo que se tem em vista, um propósito ou algo que te desperta para a vida. Não sei se é o mesmo que Beleza. Talvez meu sonho seja o de cultivar coisas belas sem para isso abrir mão da verdade. Coisa abstrata. Mas quando eu vejo o Saramago, com todo seu ateísmo empedernido, falar que todo dia ele coloca água em suas plantas pela mera possibilidade de ver esse milagre de vida acontecendo, eu não vejo nada abstrato. Eu sinto algo superior, algo menos miserável que uma vida de deserto sem água.
Eu sonho em vivenciar coisas e transformá-las, de preferência, em poesia. Três ou quatro linhas, que em si, dizem tudo. Pequenas mandalas que se fecham, coisas pequenas que, em sua simplicidade, falem um pouco da totalidade. Estou, por fim, querendo me alinhar com o mundo. Mas do meu jeito. Quero trazer para o mundo alguma descoberta nova, um pouco que seja de contribuição para o Zeigst, o espírito do mundo, ser simbólico.
O mundo prático me chama. Mas continuarei.
Saturday, July 22, 2006
Sobre tudo
A vida está no olho,
se compõe de cheiro, gosto,
pode ser escrita com o corpo reto
ou num caminhar torto.
Sabe quem bebe
não só o que é doce,
mas o que é amargo ao paladar
e ainda o agridoce.
Pois toda vida é arte.
se compõe de cheiro, gosto,
pode ser escrita com o corpo reto
ou num caminhar torto.
Sabe quem bebe
não só o que é doce,
mas o que é amargo ao paladar
e ainda o agridoce.
Pois toda vida é arte.
Sunday, July 02, 2006
In memorian
Pra sempre
Carlos Drummond de Andrade
"Por que Deus permite que
as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho."
Ontem perdi a minha mãe. Uma dessas coisas terríveis, sem lógica e sem explicação. Dá pra entender porque tanta gente acredita em Deus e cria religiões. A morte, coisa terrível. Coisa inacreditável.
Carlos Drummond de Andrade
"Por que Deus permite que
as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho."
Ontem perdi a minha mãe. Uma dessas coisas terríveis, sem lógica e sem explicação. Dá pra entender porque tanta gente acredita em Deus e cria religiões. A morte, coisa terrível. Coisa inacreditável.
Wednesday, June 28, 2006
Subjetividade
A Virgem Maria - Manuel Bandeira
"O oficial de registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa Casa e o administrador do cemitério de São João Batista
Cavaram com enxadas
Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma cova mais funda que o meu suspiro de renûncia
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei
Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer i n s i s t e n t e m e n t e
Que fazia sol lá fora."
Me identifiquei com o poema. Sobrevivi a todos os enterros que tentaram promover para mim, à revelia. Antes eu atacaria em retorno os coveiros com suas próprias pás. Hoje não me importa. Podem enterrar e construir por cima a lápide, acreditando que estou no túmulo. Enterrem o que quiserem. Eu estarei bem distante.
"O oficial de registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa Casa e o administrador do cemitério de São João Batista
Cavaram com enxadas
Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma cova mais funda que o meu suspiro de renûncia
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei
Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer i n s i s t e n t e m e n t e
Que fazia sol lá fora."
Me identifiquei com o poema. Sobrevivi a todos os enterros que tentaram promover para mim, à revelia. Antes eu atacaria em retorno os coveiros com suas próprias pás. Hoje não me importa. Podem enterrar e construir por cima a lápide, acreditando que estou no túmulo. Enterrem o que quiserem. Eu estarei bem distante.
Friday, June 16, 2006
Outra do Cream
Swlabr
Coming to me in the morning, leaving me at night.
Coming to me in the morning, leaving me alone.
You've got that rainbow feel but the rainbow has a beard.
Running to me a-cryin' when he throws you out.
Running to me a-cryin', on your own again.
You've got that pure feel, such good responses,
But the picture has a mustache.
You're coming to me with that soulful look on your face,
Coming looking like you've never ever done one wrong thing.
So many fantastic colors; I feel in a wonderland.
Many fantastic colors makes me feel so good.
Rock, psicodelia, Eric Clapton. Deu no Cream, um power trio, na verdade O power trio, com um som distinto de qualquer outra coisa que eu já ouvi. Formação: Jack Bruce (vocal/baixo), Ginger Baker (bateria) e, claro, Eric Clapton (segundo vocal/guitarra).
Coming to me in the morning, leaving me at night.
Coming to me in the morning, leaving me alone.
You've got that rainbow feel but the rainbow has a beard.
Running to me a-cryin' when he throws you out.
Running to me a-cryin', on your own again.
You've got that pure feel, such good responses,
But the picture has a mustache.
You're coming to me with that soulful look on your face,
Coming looking like you've never ever done one wrong thing.
So many fantastic colors; I feel in a wonderland.
Many fantastic colors makes me feel so good.
Rock, psicodelia, Eric Clapton. Deu no Cream, um power trio, na verdade O power trio, com um som distinto de qualquer outra coisa que eu já ouvi. Formação: Jack Bruce (vocal/baixo), Ginger Baker (bateria) e, claro, Eric Clapton (segundo vocal/guitarra).
Cream
World of Pain
Outside my window is a tree.
Outside my window is a tree.
There only for me.
And it stands in the gray of the city,
No time for pity for the tree or me.
There is a world of pain
In the falling rain
Around me.
Is there a reason for today?
Is there a reason for today?
Do you remember?
I can hear all the cries of the city,
No time for pity for a growing tree.
Uma das maiores bandas de todas.
Outside my window is a tree.
Outside my window is a tree.
There only for me.
And it stands in the gray of the city,
No time for pity for the tree or me.
There is a world of pain
In the falling rain
Around me.
Is there a reason for today?
Is there a reason for today?
Do you remember?
I can hear all the cries of the city,
No time for pity for a growing tree.
Uma das maiores bandas de todas.
O Nome da Rosa
O Julgamento
O Mago
O Julgamento
O Eremita
(Apesar de ter achado o filme Código Da Vinci um saco, fiquei com algumas idéias na cabeça.)
Um enigma de esfinge pra uma egípcia.
O Mago
O Julgamento
O Eremita
(Apesar de ter achado o filme Código Da Vinci um saco, fiquei com algumas idéias na cabeça.)
Um enigma de esfinge pra uma egípcia.
Sonhos
Outro insight. Parece que meus sonhos vem sempre em 3, distanciados temporalmente entre si. Ontem liguei o cavalo ao cavaleiro e ao campo de futebol. Hoje lembrei de um outro sonho.
Estava eu e um colega conversando numas nuvens espessas, acima, bem acima de um estádio de futebol. Esse colega estava no sonho por ser um grande amigo, desses de pouco tempo mas significativos. Engraçado, minhas amizades de verdade acontecem no silêncio. Dispensam palavra ou conhecimento.
Ambos sabemos que há um monstro lá embaixo, algo que está matando as pessoas. A única coisa que mata pessoas, eu acho, é o tempo. Meu amigo me chama para ir lá embaixo, participar do jogo, e pula, caindo para baixo das nuvens. Eu fico sozinho, com medo, e não desço.
O de cima, superior à realidade, cheio de conhecimentos teóricos e sonhos de beleza num mundo sem tempo nem morte nem realização.
O de baixo, o menino mudo que anda com dificuldades, entrando em campo despreparado, armado apenas da própria teimosia e coragem, submetido à materialidade e a recusa de viver uma vida, se ela não for perfeita.
E o cavalo, veículo, vigor, força, livre mas batendo cabeça.
E o terceiro, ainda não anunciado. O resultado da soma dos 2, o cavaleiro imperfeito, mas real, corajoso e conectado a realidade, mas ligado à transcendência e ao Ser do mundo sem tempo.
O Ser que é, simplesmente, a totalidade de um sujeito.
Me veio outro sonho. Uma garota de quem eu gosto. Ela toca um piano com 3 teclas. As 3 teclas, em conjunto, são destacáveis do piano. Ela me mostra A,B ou C. Diz: "Quantas combinações dá pra fazer com isso?".
Mais outro. Meu analista, na janela do carro, me diz: "Lembre-se, o quadrado é perfeito, mas não é completo." E eu peço que ele me ajude, através da análise, para que eu me sinta mais inteiro.
Mas a análise não se presta a isso. A análise tem o fim de tornar a incompletude, a falta que define o ser humano, mais suportável. Diz Freud que queria tornar a miséria da vida humana em um sofrimento mais tolerável. Buda diz: toda vida é sofrimento. E o objetivo dele é o mesmo: lide com o sofrimento e torne-o possível.
O triângulo, me lembra triângulo amoroso e também a trindade. O quadradro, me lembra um ringue, a carta do Imperador e a idéia desta ser a única forma perfeita criada pelo homem.
Só através da batalha se construirá esse quadrado perfeito. Só no sangue. Familiar isso, não? Quantos mortos ao longo da história? Quanto sangue derramado para construir a cidade de deus?
Transmutar o Ego-Dragão para o Sábio-Dragão, equilíbrio de bicho que vive na terra e no céu, como Shiva, um pé sobre o anão da ignorância e o outro levantado, erguido no ar.
Ainda ouvindo Caetano Veloso:
Mora na filosofia... pra que rimar... amor com dor?
Por enquanto me falta o que escrever.
Estava eu e um colega conversando numas nuvens espessas, acima, bem acima de um estádio de futebol. Esse colega estava no sonho por ser um grande amigo, desses de pouco tempo mas significativos. Engraçado, minhas amizades de verdade acontecem no silêncio. Dispensam palavra ou conhecimento.
Ambos sabemos que há um monstro lá embaixo, algo que está matando as pessoas. A única coisa que mata pessoas, eu acho, é o tempo. Meu amigo me chama para ir lá embaixo, participar do jogo, e pula, caindo para baixo das nuvens. Eu fico sozinho, com medo, e não desço.
O de cima, superior à realidade, cheio de conhecimentos teóricos e sonhos de beleza num mundo sem tempo nem morte nem realização.
O de baixo, o menino mudo que anda com dificuldades, entrando em campo despreparado, armado apenas da própria teimosia e coragem, submetido à materialidade e a recusa de viver uma vida, se ela não for perfeita.
E o cavalo, veículo, vigor, força, livre mas batendo cabeça.
E o terceiro, ainda não anunciado. O resultado da soma dos 2, o cavaleiro imperfeito, mas real, corajoso e conectado a realidade, mas ligado à transcendência e ao Ser do mundo sem tempo.
O Ser que é, simplesmente, a totalidade de um sujeito.
Me veio outro sonho. Uma garota de quem eu gosto. Ela toca um piano com 3 teclas. As 3 teclas, em conjunto, são destacáveis do piano. Ela me mostra A,B ou C. Diz: "Quantas combinações dá pra fazer com isso?".
Mais outro. Meu analista, na janela do carro, me diz: "Lembre-se, o quadrado é perfeito, mas não é completo." E eu peço que ele me ajude, através da análise, para que eu me sinta mais inteiro.
Mas a análise não se presta a isso. A análise tem o fim de tornar a incompletude, a falta que define o ser humano, mais suportável. Diz Freud que queria tornar a miséria da vida humana em um sofrimento mais tolerável. Buda diz: toda vida é sofrimento. E o objetivo dele é o mesmo: lide com o sofrimento e torne-o possível.
O triângulo, me lembra triângulo amoroso e também a trindade. O quadradro, me lembra um ringue, a carta do Imperador e a idéia desta ser a única forma perfeita criada pelo homem.
Só através da batalha se construirá esse quadrado perfeito. Só no sangue. Familiar isso, não? Quantos mortos ao longo da história? Quanto sangue derramado para construir a cidade de deus?
Transmutar o Ego-Dragão para o Sábio-Dragão, equilíbrio de bicho que vive na terra e no céu, como Shiva, um pé sobre o anão da ignorância e o outro levantado, erguido no ar.
Ainda ouvindo Caetano Veloso:
Mora na filosofia... pra que rimar... amor com dor?
Por enquanto me falta o que escrever.
Veloso
If you hold a stone
hold in your hand
if you feel the weight
you'll understand
ou
Se você segurar uma pedra
segure-a na sua mão
se você sentir o peso
você vai entender.
Esse Caetano Veloso, meio sem querer, disse uma das coisas mais poéticas que já ouvi. Se você sente o peso da pedra não irá jogá-la em ninguém. Dai a idéia de pecado, essa invenção ridícula, perde completamente o valor. Não jogue a pedra, mas não por lhe faltar pecado. Mas por ter compaixão com quem levaria a pedra na cara.
Compaixão, que segundo o Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser (que teve versão cinematográfica, em que milagrosamente o filme é melhor que o livro) tem duas raizes: 1 - significando "se condoer" e 2, a mais fantástica, que compaixão (com + paixão) quer dizer "sentir com" ou partilhar sentimentos.
Eu que ia escrever sobre sonhos, acabei desviando no meio do caminho, ouvindo esse cd do Caetano, do tempo dele na Inglaterra. Tá entre as melhores coisas que já ouvi, esse álbum e o Transa. Virei fã dessa english fase. Um cara que consegue escrever em inglês, juntando com português e carregando nos sons brasileiros não pode ser menos que genial.
I wish to know things are getting better...better...beta...betânia...
She has given her soul to the devil and bought a flat by the sea.
(...)
You don't know me... bet you never get to know me... you don't now me at all... feel so lonely... the world is spinning round slowly... there's nothing you can show me from behind the wall... show me from behind the wall... why don't you show me from behind the wall?? Nasci lá na bahia de mucama com feitor... o meu pai dormia em cama... minha mãe no pisador...
yes, the worl is spinning round slowly. just about to stop. or maybe i'm getting used to it... i exist in the center... the eye of the whirllwind... so, probably, everything will continue it's way, spinning and spinning... until I cease to be. Ou não e eu saio do centro. O mundo vai pro centro e eu só orbito.
hold in your hand
if you feel the weight
you'll understand
ou
Se você segurar uma pedra
segure-a na sua mão
se você sentir o peso
você vai entender.
Esse Caetano Veloso, meio sem querer, disse uma das coisas mais poéticas que já ouvi. Se você sente o peso da pedra não irá jogá-la em ninguém. Dai a idéia de pecado, essa invenção ridícula, perde completamente o valor. Não jogue a pedra, mas não por lhe faltar pecado. Mas por ter compaixão com quem levaria a pedra na cara.
Compaixão, que segundo o Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser (que teve versão cinematográfica, em que milagrosamente o filme é melhor que o livro) tem duas raizes: 1 - significando "se condoer" e 2, a mais fantástica, que compaixão (com + paixão) quer dizer "sentir com" ou partilhar sentimentos.
Eu que ia escrever sobre sonhos, acabei desviando no meio do caminho, ouvindo esse cd do Caetano, do tempo dele na Inglaterra. Tá entre as melhores coisas que já ouvi, esse álbum e o Transa. Virei fã dessa english fase. Um cara que consegue escrever em inglês, juntando com português e carregando nos sons brasileiros não pode ser menos que genial.
I wish to know things are getting better...better...beta...betânia...
She has given her soul to the devil and bought a flat by the sea.
(...)
You don't know me... bet you never get to know me... you don't now me at all... feel so lonely... the world is spinning round slowly... there's nothing you can show me from behind the wall... show me from behind the wall... why don't you show me from behind the wall?? Nasci lá na bahia de mucama com feitor... o meu pai dormia em cama... minha mãe no pisador...
yes, the worl is spinning round slowly. just about to stop. or maybe i'm getting used to it... i exist in the center... the eye of the whirllwind... so, probably, everything will continue it's way, spinning and spinning... until I cease to be. Ou não e eu saio do centro. O mundo vai pro centro e eu só orbito.
Wednesday, June 14, 2006
Sonhos
O sonho tem uma importância enorme para todas as sociedades, arcaicas ou modernas. Para os aborígenes, houve um tempo antes do tempo, o Dreamtime, ou Tempo do Sonho, quando os espíritos ancestrais caminhavam sobre a terra. Brahma, o deus criador Hindú, cria o mundo usando como matéria os sonhos de Vishnu, o deus que dorme. Para a psicanálise, os sonhos são construtos do inconsciente, formas de realizar desejos não realizados conscientemente, repetições de ações feitas durante a vigília ou mensagens codificadas.
É bem comum que, quando se sonha, não se compreenda o sonho. Substituições, metáforas e misturas de elementos são comuns na tecitura onírica. Os sonhos complexos, de primeira, parecem desconexos e sem sentido. Acontece de só se compreender uma ou outra peça e se compor uma idéia geral a partir dos fragmentos muito tempo depois. Essa forma de compreensão me surge como insight, uma consciência repentina aparentemente ilógica.
Num primeiro sonho, há meses, vi um cavalo marrom, de semblante tranquilo, preso numa gaiola de zoológico. Quando o vejo, choro e o sentimento é de reencontrar algo que tinha se perdido. Dois meninos, meio demônios, riem de mim.
No segundo sonho, aparece um menino, mudo, com dificuldade de andar, que sou eu. A mãe, como uma secretaria de executivo, fala por ele. Conversa com um fisioterapeuta, que é um ator de cinema que eu tinha visto no IR dias antes. "Ele não aceita andar de cadeira de rodas" diz ela. "Mas vai ter que usá-la, não tem jeito" diz ele.
Então vejo um cavalo branco, num campo de futebol, correndo para o gol, prestes a atingir uma das traves. Outras pessoas, banqueiros e apostadores, observam. O cavalo está livre e transmutado, mas vai bater a cabeça e se machucar inutilmente. O cavalo, símbolo de força, virilidade e direcionamento, está sem cavaleiro. Está abandonado.
De que serviria o cavalo contra o Dragão, sem São Jorge? Alguém deve carregar a lança e conduzir o cavalo, símbolo da força instintiva purificada, contra o Dragão, na visão católica um símbolo do ego devorador e da sombra que não foi integrada à consciência. O cavaleiro é, assim, a consciência que direciona a força primal. No tarô, O Carro, carta do arquétipo do herói
Mas o cavaleiro não aceita, no meu sonho, a incumbência. O menino se julga inadequado para conduzir tal força e se recusa a aceitar a realidade: ele não poderá ser um cavaleiro como os outros. Como a realidade é negada, o menino nunca vai crescer e se tornar homem. Se sagrar cavaleiro, direcionar a própria vida, que está parada.
Uma mensagem do inconsciente que me parece assim, clara. Aceitar a realidade, sentir a dor de um rito de passagem, transmutar-se e assumir de vez o cavalo.
É bem comum que, quando se sonha, não se compreenda o sonho. Substituições, metáforas e misturas de elementos são comuns na tecitura onírica. Os sonhos complexos, de primeira, parecem desconexos e sem sentido. Acontece de só se compreender uma ou outra peça e se compor uma idéia geral a partir dos fragmentos muito tempo depois. Essa forma de compreensão me surge como insight, uma consciência repentina aparentemente ilógica.
Num primeiro sonho, há meses, vi um cavalo marrom, de semblante tranquilo, preso numa gaiola de zoológico. Quando o vejo, choro e o sentimento é de reencontrar algo que tinha se perdido. Dois meninos, meio demônios, riem de mim.
No segundo sonho, aparece um menino, mudo, com dificuldade de andar, que sou eu. A mãe, como uma secretaria de executivo, fala por ele. Conversa com um fisioterapeuta, que é um ator de cinema que eu tinha visto no IR dias antes. "Ele não aceita andar de cadeira de rodas" diz ela. "Mas vai ter que usá-la, não tem jeito" diz ele.
Então vejo um cavalo branco, num campo de futebol, correndo para o gol, prestes a atingir uma das traves. Outras pessoas, banqueiros e apostadores, observam. O cavalo está livre e transmutado, mas vai bater a cabeça e se machucar inutilmente. O cavalo, símbolo de força, virilidade e direcionamento, está sem cavaleiro. Está abandonado.
De que serviria o cavalo contra o Dragão, sem São Jorge? Alguém deve carregar a lança e conduzir o cavalo, símbolo da força instintiva purificada, contra o Dragão, na visão católica um símbolo do ego devorador e da sombra que não foi integrada à consciência. O cavaleiro é, assim, a consciência que direciona a força primal. No tarô, O Carro, carta do arquétipo do herói
Mas o cavaleiro não aceita, no meu sonho, a incumbência. O menino se julga inadequado para conduzir tal força e se recusa a aceitar a realidade: ele não poderá ser um cavaleiro como os outros. Como a realidade é negada, o menino nunca vai crescer e se tornar homem. Se sagrar cavaleiro, direcionar a própria vida, que está parada.
Uma mensagem do inconsciente que me parece assim, clara. Aceitar a realidade, sentir a dor de um rito de passagem, transmutar-se e assumir de vez o cavalo.
Monday, June 12, 2006
Caçador de Mim
Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu caçador de mim
Preso a canções, entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu caçador de mim
Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir as armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu caçador de mim
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu caçador de mim
Preso a canções, entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu caçador de mim
Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir as armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu caçador de mim
Sunday, June 11, 2006
O Gigante
Ele era grande. Lembro direitinho. Eu achava que ele tinha uns bons metros de altura. Era quase uma árvore. Diziam que ele era bravo. Engraçado que, durante a minha vida toda, eu nunca tinha visto isso. Pra mim ele era uma árvore firme e simpática, algo como o Barbárvore. Quando eu era pequeno e o visitava lá em Oliveira. O que ficou na minha memória é o "quando eu era pequeno".
Quando eu era pequeno, ele gostava de ler revistinhas e uns livrinhos de faroeste, não lembro quais, mas garanto que havia um Tex entre elas. Eu achava que ele era o homem mais sábio de todos, manifestação arquetípica da experiência.
Quando eu era pequeno, ele me dizia que as sementes de girassol que ficava nas telas atrás da cozinha era comida pra passarinho. Que o girassol é que comandava o movimento do sol, numa mitologia bonita. Que o tomate pequeno era venenoso. Eu lembro também de Jornal Nacional, que ele assistia. Ou mesmo jornal impresso, que até os últimos dias ele costumava ler. Já quando eu não era tão pequeno, lembro dele cortando vara de marmelo pra eu e meu primo brincar de cai n'água, no carnaval.
Outra imagem, a mais triste que eu já vi. Meu avô, sentado numa cadeira, ao lado do caixão da minha avó. Muito triste, mas de uma beleza, de uma força incomensurável. O ser humano é belo nos grandes momentos, nesses momentos em que todo mundo é igual. Perante a morte treme mesmo quem acredita. Mas, depois do fim, havia sim um amor, continuava uma ligação forte entre os dois.
Hoje, meu avô morreu. Mesmo sabendo que ele não era tão gigante, afinal de contas, prefiro lembrar com olhos de vinte anos atrás. Os mortos, os nossos mortos, vivem é na memória.
Quando eu era pequeno, ele gostava de ler revistinhas e uns livrinhos de faroeste, não lembro quais, mas garanto que havia um Tex entre elas. Eu achava que ele era o homem mais sábio de todos, manifestação arquetípica da experiência.
Quando eu era pequeno, ele me dizia que as sementes de girassol que ficava nas telas atrás da cozinha era comida pra passarinho. Que o girassol é que comandava o movimento do sol, numa mitologia bonita. Que o tomate pequeno era venenoso. Eu lembro também de Jornal Nacional, que ele assistia. Ou mesmo jornal impresso, que até os últimos dias ele costumava ler. Já quando eu não era tão pequeno, lembro dele cortando vara de marmelo pra eu e meu primo brincar de cai n'água, no carnaval.
Outra imagem, a mais triste que eu já vi. Meu avô, sentado numa cadeira, ao lado do caixão da minha avó. Muito triste, mas de uma beleza, de uma força incomensurável. O ser humano é belo nos grandes momentos, nesses momentos em que todo mundo é igual. Perante a morte treme mesmo quem acredita. Mas, depois do fim, havia sim um amor, continuava uma ligação forte entre os dois.
Hoje, meu avô morreu. Mesmo sabendo que ele não era tão gigante, afinal de contas, prefiro lembrar com olhos de vinte anos atrás. Os mortos, os nossos mortos, vivem é na memória.
Friday, June 09, 2006
Canto de Ossanha
"O homem que diz dou não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz vou não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz sou não é
Porque quem é mesmo é não sou
O homem que diz estou não está
Porque ninguém está quando quer"
Sabia das coisas, esse Vinícius...
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz vou não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz sou não é
Porque quem é mesmo é não sou
O homem que diz estou não está
Porque ninguém está quando quer"
Sabia das coisas, esse Vinícius...
Tuesday, June 06, 2006
Monday, May 29, 2006
Antônio Machado
"O que é essa gota
no vento
que grita ao mar:
sou o mar?"
Mínimo, diante da totalidade. Já não luto contra a existência, não sou mais estóico e sorridente. Eu digo bobagens. Eu erro e me defendo. Tenho dentes e gritos. Tenho sangue e vivo e me corto e corto de volta. Eu fico triste, revoltado e muito puto com injustiças. O mundo parecia tão justo, tão à parte de tudo. Eu acreditava no que dizia o homem de vitrúvio, o idiota proporcionalmente perfeito. Prefiro o corpo nu da Estrela. Tão mais bela. Pinta o desejo, ah, se ela fosse minha! Eu divago, pensando como seria poder parar sem precisar procurar caminho. Pensando como a vida poderia ser agradável em simplicidade. Apenas um desejo fruto da minha "estrangeirice" nesse mundo feito de tempo e pedra.
no vento
que grita ao mar:
sou o mar?"
Mínimo, diante da totalidade. Já não luto contra a existência, não sou mais estóico e sorridente. Eu digo bobagens. Eu erro e me defendo. Tenho dentes e gritos. Tenho sangue e vivo e me corto e corto de volta. Eu fico triste, revoltado e muito puto com injustiças. O mundo parecia tão justo, tão à parte de tudo. Eu acreditava no que dizia o homem de vitrúvio, o idiota proporcionalmente perfeito. Prefiro o corpo nu da Estrela. Tão mais bela. Pinta o desejo, ah, se ela fosse minha! Eu divago, pensando como seria poder parar sem precisar procurar caminho. Pensando como a vida poderia ser agradável em simplicidade. Apenas um desejo fruto da minha "estrangeirice" nesse mundo feito de tempo e pedra.
Wednesday, May 24, 2006
Noiva da cidade
"Ela sabe muito bem que quando adormece
Está roubando
O sono de outra gente
Ai, quanta maldade a dessa moça
E, que aqui ninguém nos ouça
Ela sabe enfeitiçar"
Está roubando
O sono de outra gente
Ai, quanta maldade a dessa moça
E, que aqui ninguém nos ouça
Ela sabe enfeitiçar"
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