Monday, April 25, 2011

Matinal

Começa lento
sonolento e vagaroso
transfixo em caras e corpos.
Os dias, impressos em cada um,
cada um de tantos,
qualquer um de tantos.
Uns poucos, mais mortos,
asfixiados por suas máscaras de plástico,
pretendem sorrisos.
O (mau) humor matinal
é mais humano,
bem mais sincero.

Zen sufista

O amor é o perfeito silêncio
sentido quando não há barreira
e as palavras,
imperfeitas em sua natureza,
se calam.

Amor é uma morte,
pois se existimos e somos
o que dizemos e pensamos
sobra pouco no meio do silêncio.

Sem palavra não há fuga
ou subterfúgio.
Resta a conexão,
contato direto com a realidade,
sinceridade da vida
e plenitude.

Monday, February 21, 2011

Eles

Para eles sou metade
mendigo existencial
alvo de olhos rendidos.

Eles olham para baixo, não encaram
e quase posso ouvir seu pensamento.
Para eles sou surpresa
pelo meu respirar
pelo fato de viver
e seguir em frente.
Para eles sou menos
santo assexuado
ou possuído, amaldiçoado.
Para eles, em seu kardecismo preconceituoso
nasci pior, pagando meu karma/crime.
Antes eu os queria mortos
decepados, destruídos.

Hoje eu não os vejo
não sonho com seus olhares
nem mais me escondo.

Monday, December 06, 2010

o olho

os olhos se relacionam ao invisível
são a máquina de somar, multiplicar,
aplicar novas camadas ao mundo.
a melhor cor pra tudo é a imaginação

distrofia

olhar o dragão
estudá-lo
medir seu tamanho
conhecer seu peso.
conhecer o inimigo,
para travar a guerra da vida
bravamente.
espada em punho
e sorriso nos lábios.

Monday, October 25, 2010

olhar

não ha arte que se perca
apenas um hábito que se esquece
meio sem querer
tipo na rotina.
o olho é o mesmo
mesma cor, mesma iris,
mas a alma que por ele escuta
muda, é diferente.
é alma cansada,
alma óbvia
que esqueceu de ver o novo.
o sorriso dela e a frase implícita
"tudo vai ficar bem".
é um ir embora que segue um
"titio" de um ser pequenino,
e você volta só pra ver a brincadeira
de criança que descobre, que se torna.
Arte, olhar de quem busca o devir
e não esquece, nem se quiser.
alimento sempre e desalento também
o tudo que é só um pouquinho
mas basta. basta.

Morno

Morno,
como quem vomita
sem opnião
apenas uma palha quebradiça
fácil, que se parte com o vento.
Eu, que já me parti
com o peso de meu próprio corpo.
Em número 3, exato,
femuramente no mesmo lugar.
Me sinto fraturado,
com andar fraco.
Exposto, sem pele
temeroso, desconfiantemente
eu mesmo.
Soco no ar
de um rato que ruge
e um demônio, que ri baixinho.

Sunday, June 13, 2010

amor

Quero cantar o amor
e o todo que ele representa.
Deixar que flua
que cure e transforme
revelando, purificado,
o espírito, minha alma.
Árdua tarefa
pois amor é filho do silêncio
surge na calma, no perfeito vazio.
O Eu é a barreira
construções ilusórias
Maya sobre a vida...
Quando tudo está quieto
quando não há barreiras
entre o sujeito e a experiência
é ele que vibra.
O amor é encontro
do ser com a vida
o silêncio búdico
que revela o sentimento crístico.

Monday, June 07, 2010

passado do feliz etnocentrismo

O passado
promessa encerrada
lembrança irreal da perfeição
ilusória, gritada aos sete ventos.

A música está morrendo,
O cinema está definhando

Antigamente, as coisas eram mais certas.
Onde estão os valores?
(cadê meu rivotril??)

A morte visita aqueles que querem morrer
o passado é vulto, é âncora, é desculpa.

Antigamente, as coisas eram melhorespra quem era branco
pra quem não era mulher
exclusivamente para os heterosexuais
num mundo em que os que tinham deficiência eram escondidos
trancafiados, eliminados.

O amor exclusivo ao passado é para os mortos,
os velhos infantis, teimosos e apegados ao que já foi
incapazes de se conciliar com o mundo do real.

Morram, aqueles que querem morrer
e chega de lamúria, sem drama.

A vida é nova, é trabalho de demiurgo
de gente que sonha e cria o mundo.
de quem aprende com o passado
e sai a cata do que ainda não é
mas pode tornar-se, é devir.

Monday, May 31, 2010

dor

sabe quando a gente se sente grande demais?
quando parece que se você fosse menor
menor, proporcionalmente, seria a dor?
mais suportável seria o sofrimento
esse rasgo que descobre o negrume da alma
e expõe, explicita, esfrega-se na cara do mundo.
sinto dor mas não cuspo sangue...
sinto dor mas não sei por que
nem de onde veio, nem pra onde vai.
Além da dor, sinto o desespero
me acuando, me apunhalando
como um fantasma
um ser de outro mundo
que não se pode tocar.
que dele não se pode defender
pois nada parece diferente
nem mais errado que ontem
apenas mais claro
como um ferro em brasas
quente, próximo dos olhos.
Grito no vácuo
sem porque.
nada, ABSOLUTAMENTE NADA
que explique.
eu, eu minto.
uma alma que não grita
um ego que esperneia
um auto-crítico que se deleita
h i s t e r i c a m e n t e
a l é m  da medida.

sim, não há pista
mas o veneno simplesmente se destila
escrito aos bits
arriscado de se perder
num simples fechar de telas.

o auto-crítico não mais sorri
ao perceber sua ode masturbatória
em risco de vida.

eu sorrio
feito balão
esvaído de gases inúteis
minhas amadas idéias mortas
meus ideais sempre incognoscíveis
meu gostos esconcidos em pistas
imiscuidos no gosto dos outros
feito um medroso
que precisa de companhia para saltar o penhasco
que pede desculpa
pra ver se alguém escuta.
mas não, vivo em monólogo
grito em monólogo
e brigo apenas comigo.

e escrevo, como se tudo fosse verdade
e acredito, como se tudo fosse verdade.

quem sou não é uma pergunta
quem sou é ausência de perguntas
quem sou é silenciosa, não esperneante, aceitação.

CANSEI.

André C.