Tuesday, February 28, 2006

Jornada

Nunca fui um sujeito muito aberto. Não falo muito de mim, por acreditar que isso não faz muito sentido.

Falo pouco também sobre deficiência, como se fosse ponto passivo na minha vida. Estranho perceber que não é algo resolvido. Não costumo falar desse componente de quem eu sou, por não ver sentido em falar de coisas que não podem ser resolvidas, por não confiar totalmente que a palavra é um caminho de cura, ou talvez por não acreditar que vale a pena partilhar certas coisas.

Aceitação, por mais que eu leia e entenda coisas como o budismo, ainda soa como conformismo. É como se eu não pudesse aceitar e acreditasse que, por via da teimosia, eu posso dobrar as circunstâncias, dobrar aço com as mãos e seguir. Muito pode ser feito mas de certas coisas não há fuga. Elas simplesmente estão lá, devem ser olhadas.

A análise me fez ouvir minha própria voz. Estranho perceber que eu sou único, mas comum como tantos. Um dentre uma infinidade de pessoas que nunca teve a oportunidade de se ouvir e de confrontar, pouco a pouco, a própria realidade.

Me disse um amigo: "depois da dor, vem o riso". A dor só passa se for vivida. Então você se torna capaz de olhá-la na cara e rir, como quem ri da roupa encardida da morte.

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